Arquivos

Emma – Emma.

11 de março de 2016 por Camila

Estão lembrados da seqüência que eu tinha decidido ler a obra de Jane Austen? Mudei de idéia. Pulei de ‘Sense And Sensibility’ para ‘Emma’  (aqui no Brasil, também ‘Emma’) ao passear o olhar meio que sem querer pela primeira página do livro.

Quando Jane (#MelhorAmigaPraSempre!) publicou ‘Emma’ lááááá em 1815, ela disse que a heroína do seu novo romance seria alguém que ninguém, além da própria autora, iria simpatizar. Não sei se eu concordo com a Jane ou se dou um credito à Emma: ela, de fato, pode ser bem chatinha com a sua falta de noção ou incapacidade de enxergar um palmo diante do nariz, mas o coração dela está no lugar certo e não está carregado de más intenções. Ao contrário, ela tropeça em si própria nas suas tentativas de acerto.

Emma é humana – bastante humana -, embora tente a todo custo parecer divina. Ajuda a quem lhe chega da maneira que sabe e acredita ser a mais correta, porém, o desconhecimento das necessidades de uma realidade distinta dos privilégios que a cercam lhe provoca uma certa falta de empatia. Entretanto, ao perceber que erra, não mede esforços para consertar as situações resultantes dos seus comportamentos inadequados.

Ela demora para entender a lógica das coisas que fogem ao que conhece de mundo e constantemente precisa ser chamada de volta à razão pelas pessoas que possuem – por idade ou experiência – melhor senso que ela. Mas, de forma alguma, é má. Talvez ela peque aqui ou ali por ter demasiada convicção na sua forma de enxergar o funcionamento das coisas, mas por isso eu jamais a culparei (#GarotasTeimosasMeRepresentam). Suas epifanias e mea culpas são de cortar o coração de quem lê e você aprende a perdoá-la quando entende suas motivações.

‘(…) Emma’s eyes were instantly withdrawn; and she sat silently meditating in a fixed attitude, for a few minutes. A few minutes were sufficient for making her acquainted with her own heart. A mind like hers, once opening to suspicion, made rapid progress; she touched, she admitted, she acknowledged the whole truth. (…) It darted through her with the speed of an arrow that Mr. Knightley must marry no one but herself! Her own conduct, as well as her own heart, was before her in the same few minutes. She saw it all with a clearness which had never blessed her before. (…) To understand, thoroughly understand her own heart, was the first endeavour. To that point went every leisure moment (…), and every moment of involuntary absence of mind.’

Brincar com a vida e o destino das pessoas é um jogo perigoso, mas Emma o faz pela vontade quase que ingênua de ver o amor prevalecer em pares que considera perfeitos (acontece que o amor, que ironia!, é de tudo o mais imperfeito). E mais, ela acha que isso jamais acontecerá com ela por mera escolha e vive devotada aos caprichos de seu pai. Ela se vê plenamente satisfeita com o mundo que a cerca e não acha que se sentirá mais completa com marido e filhos. Lembre-se que estamos aqui falando do Século XIX, e essa auto-suficiência da Emma realmente me encantou.

‘…I have not a fault to find with her person. I think her all you describe. I love to look at her; and I will add this praise, that I do not think her personally vain. Considering how very handsome she is, she appears to be little occupied with it; her vanity lies another way. (…) I have a very sincere interest in Emma. (…) There is an anxiety, a curiosity in what one feels for Emma. I wonder what will become of her. (…) She always declares she will never marry, which, of course, means just nothing at all. But I have no idea that she has yet ever seen a man she cared for. It would not be a bad thing for her to be very much in love with a proper object. I should like to see Emma in love, and in some doubt of a return; it would do her good. But there is nobody hereabouts to attach her; and she goes so seldom from home.’

Eu me rendi ao estilo da autora desde a leitura do primeiro livro. Já falei pra vocês da riqueza nas construções dos personagens e de como isso me encanta porque nos dá a possibilidade de nos reconhecermos em cada um deles, por coisas e momentos diferentes.

Ainda que eu tenha demorado um pouco pra pegar o embalo com ‘Emma’, o livro é –  obviamente –  escrito com maestria: aqui a estória não foi diferente, e o meu está completamente rabiscado com mil anotações, pensamentos soltos, post-its e idéias.

Num ou noutro capítulo, contudo, me peguei um pouco entediada e extremamente irritada com Mr. Woodhouse, Miss Bates, Mr. e Mrs. Elton (sim, ao ponto de rolar os olhos e suspirar de enfado todas as vezes em que eles apareciam. Claro que a autora os usa sabiamente e consegue, a partir deles, construir uma crítica bem-humorada à sociedade a qual pertencia e aos costumes muitas vezes bizarros que por ela eram cultivados).

Grandes obras, sabemos, não são formadas somente por personagens agradáveis e momentos de clímax intensos (é preciso saber conduzir o leitor até ali, caso contrário, por mais que ele chegue, tudo será pouco para quem não acompanha as minúcias das relações): literatura boa de verdade – dessas eternas mesmo! – é ‘apenas’ um punhado de páginas soltas que estão sendo costuradas por figuras humanas capazes de roubar o nosso fôlego e os nossos corações, fazendo com que a nossa alma sonhe e divague através das suas nuanças, traços peculiares, personalidades, estórias, hábitos, pensamentos, comportamentos e ânimos. E isso, lhes digo, está presente aqui como mágica. Tal qual Cartola de Mágico, a caneta da autora inglesa não decepciona.

Sim, você vai se ver – mais uma vez, Jane Austen dos meus pecados! – nesses protagonistas. Você vai – sim, de novo! – se identificar com eles por tudo de humano que está ali impresso (a ‘Rainha da Literatura Inglesa’ trazia em si a incrível habilidade de observar o modus operandi e os sentimentos de cada um de nós!).

E sim, por fim, esteja preparada para morrer – muitíssimo! – de amor por Mr. Knightley (sobretudo no que se refere a sua decência e integridade!), pela imaginação espirituosa e pelas epifanias da Emma. Porque sim, nós agora já sabemos que ninguém consegue escrever heroínas e amantes como Jane Austen conseguia.

Definitivamente, é um ótimo livro para mantê-la acompanhada da melhor forma possível no conforto de um chá de domingo ou para aplacar a correria da mente durante uma semana atribulada: apenas respire e flane pela singularidade dessa autora, que é sempre merecedora do seu tempo e que supera, com seu talento único e atemporal, a pressa do mundo.

– Minha resenha no GoodReads: https://www.goodreads.com/review/show/1422653537

– Interessou? Tem aqui: http://www.livrariacultura.com.br/p/emma-45687

As melhores escolhas de domingo! Não sei vocês, mas café, frio, sofá e livro estão nos meus Top 10.
As melhores escolhas de domingo! Não sei vocês, mas café, frio, sofá e livro estão nos meus Top 10.

 

Porque nada pode ser melhor do que um tempo livre para desacelerar a sua mente e acalmar o seu cérebro cansado entre dias tão ocupados. Obrigada, Deus.
Porque nada pode ser melhor do que um tempo livre para desacelerar a sua mente e acalmar o seu cérebro cansado entre dias tão ocupados. Obrigada, Deus.

 

Quando você decide que passar a noite em claro é mais importante do que estar mentalmente presente em algum dia útil. Sou dessas.
Quando você decide que passar a noite em claro é mais importante do que estar mentalmente presente em algum dia útil. Sou dessas.

 

Ok, eu desisto de mim mesma! Neste momento, em que Mr. Knightley se declara à Emma, estou GRITANDO e suspirando. Perturbada, vagando pela casa com o livro na mão enquanto tento recuperar meu fôlego parando a leitura. E xingando a Jane Austen, eloquentemente. AHHHHHH! Miss Austen DESTRUIU o meu cérebro. Eu deveria ficar longe dessa mulher, Meu Deus! '...If I loved you less, I might be able to talk about it more.'
‘…If I loved you less, I might be able to talk about it more.': ok, eu desisto de mim mesma! Neste momento, em que Mr. Knightley se declara à Emma, eu estava GRITANDO e suspirando. Perturbada, vagando pela casa com o livro na mão enquanto tentava recuperar meu fôlego parando a leitura. E xingando a Jane Austen, eloquentemente. AHHHHHH! Miss Austen DESTRUIU o meu cérebro. Eu deveria ficar longe dessa mulher, Meu Deus!

 

Melhor companhia para fins de tarde de inverno. <3
Melhor companhia para fins de tarde de inverno. <3