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Ao afeto.

24 de novembro de 2017 por Camila

São Paulo, 12 de Novembro de 1987.

‘(…) De repente ela estava bonita demais com aquele vestido vermelho a gente estava bonito junto e foi indo fácil e leve. (…) Leva tempo? Leva tempo. Problema é que o esquema de Sampa me vampiriza, não me deixa produzir como gostaria. Por isso é que tou aqui, né? Mas fico dividido: já ando com saudade grande daí, dos lugares, das pessoas, dos feelings, dos moods.’

(ABREU, Caio F.)

L., mon chéri;

São Paulo exalando cheiro de Dama da Noite pelas ruas do Brooklin – por onde perambulo trôpega e bêbada – só me faz sentir uma falta imensa de Brasília. Chamam isso de saudade, parece. Deve ser. Essa nostalgia dilacerante. Esse ‘querer mais’ impossibilitado por mil entraves mas que, bravo, sobrevive. Amar é um tipo de resistência, não é?

Um resistir corajoso a esses anos que nos separam mas que não nos permitiram esquecer. Quando tudo me exaure, encontro exílio em você e nas nossas memórias. Umas lembranças que descansam meu corpo cansado no seu sempre manso, sempre quente, sempre acolhimento, sempre sorriso, sempre sonho. Sua mão como que deixada por acaso sobre a minha barriga, os meus lábios repousando no seu pescoço e o cheiro da sua pele que é bálsamo para as feridas da minha alma.

Sei que por aí tudo segue um curso inexorável nas curvas de linhas retas e concreto suspenso. Tudo aquarelado, tudo abstrato em pinceladas incalculáveis no azul infalível do céu: Me vejo em ti. Te quero aqui. Me quero aí. Te quero em mim. Pode? Pode. A negação é a covardia de quem não sabe quase nada do amor e de quem não ousa perder-se no outro para conhecer a si mesmo.

Lembro do seu primeiro olhar para mim e só por isso me sinto irremediavelmente feliz. Eu andava  tão distraída e protegida pelo acaso da desordem das coisas, de vestido vermelho esvoaçante, e não tomei para mim as suas palavras enunciadas numa voz tão baixinha que parecia não querer existir. Mas queria. E existiu, depois, tão alta que ecoa nos meus cantos e nos meus hojes. Nos ontens, entretanto, ainda sinto todos os minutos de um querer bem que era irrevogável e dono de uma urgência sem desespero. Em toda Quarta-Feira uma flor, um bilhete, uma canção, a calmaria de despertar ao seu lado e um beijo irresponsável para me dizer que eu não tivesse pressa, que tudo estava bem e que a vida seguiria sem sobressaltos.

E seguiu, enquanto estive com você. Por aqui, já não digo. Às vezes me sinto esmagada pela horas ferozes e aceleradas dessa cidade, sabe? Não vejo o céu nem o pôr-do-sol horizontal e alaranjado da beira do Paranoá. Vejo somente muitas esquinas e pessoas que não coexistem, apenas caminham por universos inteiramente paralelos ao meu. O jeito de manter-me sã, penso, é inspirar esperança e entusiasmo pelas pequeninas coisas, mesmo quando me falta o ar nos pulmões. Sobreviver é necessário; mas viver é luxo, Meu Muito Querido. No que me pergunto: -Onde anda você com seus buquês de trevos e tortas de maçã para me alegrar? Você é o meu afeto mais bonito.

Quê mais? Conto: dia cinza, muita chuva e um frio que fez da solidão substantivo palpável. Me tranquei no apartamento, vesti roupas velhas e largas, o cabelo prendi num coque mais frouxo que as minhas certezas, os óculos embaçados, tomei litros de café, fumei muitos cigarros (sim, tudo hiperbólico e desmedido, exagerado e desproporcional: mandei a justa medida de Aristóteles às favas!), li Foucault, repensei a existência vã de muitas coisas e escrevi onze páginas no meu diário. Acredita? Sim, diário; aquele mesmo de capa rubra que você conhece e que escrevo de modo intermitente há anos. Pois bem, diz o filósofo que as escritas de si nos tornam mais racionais porque, através de reflexões, meditações e do digerir a leitura do outro, acalmamos as agitações do cérebro e da alma causadas pelas dispersões e ansiedades do futuro. Que regressar ao passado nos torna mais sábios. Será? Tento. Nunca fui dada ao estoicismo, mas, quem sabe? Vamos.

Por falar em muitos pretéritos, aliás, preciso confessar: me sinto inapelavelmente sua dans le tourbillon de ma vie, e mais ainda quando tropeço nos dias em que estivemos juntos. Tu me manques beaucoup, tu sais. Sabem até os que me vêem fazendo as mais ordinárias coisas a qualquer hora: esperando o pão de manhã cedinho, cantando no carro enquanto estou presa no trânsito, passando batom para disfarçar o vazio que agora fez morada na minha íris, conversando as conversas sem graça no elevador do trabalho, digitando entediada na máquina de escrever da redação claustrofóbica do jornal uma notícia qualquer que informe a piora no mundo, esperando os passos lentos do carteiro que me trazem suas respostas prolixas e românticas (não há amor maior que reconhecer a sua caligrafia no envelope pardo e amassado, mon cœur!), na impaciência da fila do supermercado e do banco no meio da tarde, nas matinês do Cine Belas Artes e nas noites de calçadas sujas da Avenida Paulista enquanto ando apressada fugindo de monstros comuns. O tempo passa, passa, e as coisas ficam; um permanecer intransitivo das escolhas que eu já nem lembro de ter feito.

Te beijo da cabeça aos pés e prestando especial atenção no seu piscar de olhos que me arrancam de mim e me levam até você numa saudade maior do que posso suportar,

M.

P.S.: Caso não tenha ficado tão claro quanto o brilho de todas as Estrelas do Oeste, je t’aime toujours.

Na bagunça da casa, o meu constante elogio ao afeto.
Na bagunça da casa, o meu constante elogio ao afeto.

 


Romance Epistolar.

19 de novembro de 2017 por Camila

Brasília, 01 de Julho de 2018.

‘O que tem de ser, tem muita força. Ninguém precisa se assustar com a distância, os afastamentos que acontecem. Tudo volta! E voltam mais bonitas, mais maduras, voltam quando tem de voltar, voltam quando é pra ser. Acontece que entre o ainda-não-é-hora e nossa-hora-chegou, muita gente se perde. Não se perca, viu?’

(ABREU, Caio F.)

F., muito Querido;

Há dez anos passados chegaste na minha vida com uma tarefa tanto óbvia quanto insalubre: ensinar-me que o amor não precisa doer, que pode, à própria maneira, ser eco de gargalhadas contínuas e de um companheirismo que se reconhece no pouco alarde e no misterioso do silêncio.

A vida aconteceu, girou bem forte, rodopiou, bagunçou tudo e tratou de ser generosa conosco. Eu descobri o cheiro de Paris em pleno inverno e tu percorreste os múltiplos dos teus caminhos sem atalhos. Vivemos em mundos paralelos, amamos outras tantas histórias e encontros e, com máximo respeito à dimensão de todas elas, não erro em dizer que em todo esse compreender de tempo és tu, tem sido tu, e nunca deixaste de ser o homem que melhor soube me amar e a quem amei do melhor jeito, um cheio de leveza e sutileza na entrega.

De tal modo é o desenho abstrato do imprevisto nas danças do destino, que paro e penso na sorte do regresso e na coragem da nova chance que obriga, necessariamente, um alterar de rotinas. Do meu retorno à horizontes, planaltos, lagos, asas e alvoradas, das nossas convergências e completudes, das tuas cheganças balançando a chave de casa enquanto eu finjo dormir ansiosa na tua espera quando sobes apressado a escada para nosso quarto. No teu deitar ao meu lado, me puxas pra pertinho de ti e me dizes baixinho que nunca – nunca mesmo! – mais me vá embora. Que agora, no ímpar desse momento já conhecido, está estampada a felicidade singular da volta.

Vejo o manso do nosso presente e não me preocupo com o futuro. Está guardado, é possível, é real, é palpável e é reconhecível em tudo que queremos. Mas penso, com muita doçura e indisfarçável sorriso, nos nossos dias de ontens passada uma década de lonjuras: tu enxugavas as minhas lágrimas com as mangas do teu agasalho e me foste sempre abrigo, mesmo quando já não éramos mais um par e era por outro que eu chorava. Me levavas para a faculdade na secura das manhãs que me falhavam as forças e era eu o desamor tanto quanto me desarmavas e me fazias sorrir para além dos ânimos das minhas vontades nas noites úmidas. Eras meu consolo tantas vezes ao respeitar minhas más escolhas e nunca quebraste a tua promessa de não me perguntar o porquê das coisas que fugiam ao simples. Sabias entender meu segredo de erros viciados e talvez enxergaste antes de mim e esperaste sereno pela hora certa da pessoa certa. Ainda lembro bem todas as vezes nas quais fugi para o teu colo na tentativa de calar a polifonia esquizofrênica do mundo. Nunca mais nos beijamos depois das horas incertas do fim, mas sempre traçavas mapas com as pontas dos teus dedos nas palmas frias das minhas mãos, me contavas dos lugares para onde iríamos, esquentavas o meu nariz arrebitado de moça atrevida na tua barba, me acalmavas e me dizias que as coisas ficariam bem. Agora, finalmente, ficaram. Ao teu lado, para sempre, como não poderia deixar de ser.

Pelo capricho de quem nos rege e pela adorável entropia onipresente do universo: Tu e eu. Conjugados. E celebrando os nossos acertos.

Obrigada pelo teu amor. 

Sempre soubeste da grandeza que é viver na simplicidade de pão-de-queijo com filme em branco e preto ao cair da tarde enquanto nos amontoamos disformes no sofá.

Te quero bem todos os dias e me sei feliz pelo sublime da tua presença ao meu lado,

M.

‘¿Se pueden inventar verbos? Quiero decirte uno: yo te cielo, así mis alas se extienden enormes para amarte sin medida’. (KAHLO, F.).
‘¿Se pueden inventar verbos? Quiero decirte uno: yo te cielo, así mis alas se extienden enormes para amarte sin medida’. (KAHLO, F.).


Samba de verão em primavera.

3 de outubro de 2016 por Camila

‘(…) Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que… Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve.’

(ASSIS, M. In ‘Dom Casmurro’.).

Como em um botão de FF dos antigos videocassetes, adianto minha vida de dois anos e meio para cá; para hoje, para você, para mim, para esse futuro (do) presente: o Leão da Pandinha, o Panda da Leãozinho.

Com a força irresistível que você exerce sobre as minhas convicções mais absolutas, o meu eu lírico de observância e resignificâncias do ordinário da vida parece dialogar com o mais forte e racional de mim; o instintivo sem resguardos das mágoas de ontens rasos e livre de licenças poéticas e desculpas das mais variadas para cessar o medo da entrega, da mistura do meu mundo simétrico ao seu tão livre de ordem, da sua boca desenhada no meu corpo, dos seus dedos entrelaçados nos nós dos meus cabelos, do magnético do seu olhar impreciso e cerrado, das suas mãos que me abrem caminhos e cuidados e da sua alegria que revigora o meu espírito cansado de lutar contra um cinismo que parece persistir em zombar de todos os meus esforços em sentido reverso.

Na primeira vez que nos vimos você só falava a quem quisesse ouvir do verde do meu olhar sem saber que eu não tinha nem coragem de encarar o seu. Naquele rio castanho que me decifrava devagar entre silêncios intermitentes e o sorrir pueril, eu já sabia que perderia meu prumo nas correntezas contrárias. Ou que repousaria numa margem sempre tranqüila e acessível para sanar o tédio dos meus dias. Não tinha certezas irrevogáveis, mas as apostas eram altas e claras: como curiosa que sou e sempre pago mais do que devo (ou que posso!) para ver se me arrebento ou tiro a sorte grande, não fugi ao desafio e escolhi me perder na placidez da sua calma que é bálsamo e refúgio para as loucuras das minhas horas.

Setembro em flor, e eu olho para você e entendo porque nos vejo indissociáveis e inteiros a largos prazos. Percebo as suas cores, seu estilo rimado à liberdade, seu gosto de sol nos lábios, o cheiro do vento na sua pele e a certeza dos seus passos ornando meu sorriso. Penso que você me ensinou entre muitas lições a mais importante delas: as pessoas não precisam ser parecidas para se completarem, se assemelharem nos sentimentos e na definição do eterno fugaz da vida. O que eu vejo é o meu amor inteiro ganhando mais amplidão numa só pessoa. Cantarolo – e desafino! – Caê baixinho no seu ouvido (‘…arrastando meu olhar como um ímã.’) e me encolho no seu abraço apertado e quentinho, achando graça na gula da sua mirada e nos impropérios indecentes que você me dirige e que uma moça recatada se recusa a repetir; deixa que seja só para nós nos Dias Brancos do nosso próprio tempo.

Eu amo todas as coisas que você é e tudo aquilo que faz de você, você: eu amo o seu descomplicar.

Portanto, esse aqui é pra você. Porque você existe; sólido e – contrariando Shakespeare! –  sem se desmanchar no ar: pois então, por todas as noites em que você rugiu mais alto que a minha inquietude insone e me colocou no colo para dormir protegida em meio ao meu próprio tumulto de cafeína, palavras, narrativas, romances, dissertações e poesia. Porque foi você quem tirou os meus olhos das linhas tortas dos livros e os fez repousar no horizonte azul e inabalável do mar que por vezes nos cerca. E, sobretudo, porque foi você quem me soprou de volta à vida sem saber que meu corpo já era então uma carcassa de ossos de borboleta.

Obrigada por me fazer respirar.

'(...) O meu coração é o sol, pai de toda cor.'
‘(…) O meu coração é o sol, pai de toda cor.’


Rascunhos de Outono IX: Sobre nós.

23 de abril de 2016 por Camila

‘(…) No, no, no, no! Come, let’s away to prison, we two alone will sing like birds i’ the cage: when thou dost ask me blessing, I’ll kneel down, and ask of thee forgiveness. So we’ll live, and pray, and sing, and tell old tales, and laugh at gilded butterflies, and hear poor rogues talk of court news; and we’ll talk with them too, who loses and who wins; who’s in, who’s out. And take upon’s the mystery of things, as if we were God’s spies: and we’ll wear out in a walled prison packs and sects of great ones that ebb and flow by the moon.’

(SHAKESPEARE, W. In ‘King Lear’: Act V, Scene 3.).

Na noite fria, me sento estrategicamente no banco de mármore branco justo abaixo da enorme figueira no meu jardim. Olho ao redor enquanto seguro uma caneca de chá: o vento faz bagunça, derruba e espalha folhas venenosas pelo chão. Sinto o suspiro da solidão cochichar aos meu ouvidos. Ignoro. Rememoro. E, de repente, tudo é verão outra vez.

O tempo passa por mim. Corre macio, eu nem noto. Se faz gentil: estamos juntos na cidade de leis próprias e pessoas que flanam entre a mediocridade e a magia. Lembro dos nossos pés na areia, da aflição nos meus dedinhos, dos seus beijos apressados cheios de presenças e urgências, do seu espírito oprimindo o meu que fugia para saltar mais alto, da tormenta do mar que é nosso horizonte inteiro, de tudo que você queria e eu neguei e de tudo que eu quis e você não soube como dar.

Desencontros. Perdidos em nós, cegos. A busca sigilosa por atalhos ou por caminhos na lama do fim. As estações mudam, as pessoas mudam. Você acha que eu estou suspensa num espaço inatingível aonde tudo permanece intacto. Digo que não. Agora tenho menos medo, sou mais eu. Endureci. Cresci. Percebo a ironia da vida e a crueldade do mundo. Mas o meu sorriso mole, inocente, torto e fácil me entrega: ainda tateio na cama enorme à procura dos seus braços que são – ainda, sei bem disso – meus também.

Na guerra fastidiosa entre a lonjura e o querer bem, vence o sentimento que rompe as barreiras (intransponíveis, dizem eles!) do silêncio. Entre o lugar que já conheço e me sei confortável e o desconhecido do mundo, me arrisco nas possibilidades fantásticas e impensáveis. O seu relógio é lento e resiliente: me espera nas entrelinhas dos dias e das coisas que existem com a inefável preguiça do ser.

Eles, ignorantes, me perguntam se não tenho medo de perdê-lo para sempre. Respondo que não se pode perder o que não se pode ter: gente é pássaro, pássaro voa pra tocar o azul, o azul é a alma e da alma não se demanda posse. Alma é etérea, tergiverso. Nesse Materialismo Dialético enigmático e impossível do nada ter e tudo me consumir, lembro de Caê cantando que ‘gente é pra brilhar’. E eu cantarolo depois dele a plenos pulmões, desafinada como me é de direito e de dever.

O que me chega em ruídos é o lamento de ver que quem era mágico escolhendo ser comum. Os meus olhos, encantados pelo extraordinário das coisas que sempre foram, eram desenhos de feitiços pelas linhas inexatas do seu corpo e pelo timbre da sua voz sempre grave ou agravada pela falta de esmero de algo e alguém qualquer com coisa alguma. Eu era borboleta pairando pertinho do seu nariz e soprando inadvertidamente algum tipo de leveza no bater das asas quase fatigadas. Hoje você é, me dizem por outros meios, a rotina lenta e absurda das conversas soberbas e conformadas, superficiais e ordinárias, vazias de conteúdo e cheias de vaidade, escassas de gente de verdade e repletas do fosco de quem o cerca.

Fico me perguntando o que fizeram os dias – aliado a ausência de nós – da sua figura. Sinto pena e alguma saudade da imagem que um dia guardei, mas fecho os olhos e aceito o fluir das mudanças como elas são. A existência vã e breve foi somada ao externo empobrecido das coisas (confirmando o que Sartre já sabia!) e precedeu a essência furta-cor que eu percebi, num dia qualquer e já longínquo, em você.

Encontro consolo em não querer querer: quero somente, pondero, ir além de tudo que promete ser amarra e exaustão.

Eu continuo febril, veja você, mesmo quando o cinismo quer me vencer pelo cansaço desse eterno querer.

'Está certo dizer que estrelas estão no olhar de alguém que o amor te elegeu pra amar. (…) Gente viva, brilhando estrelas na noite. Gente quer comer, gente quer ser feliz, gente quer respirar ar pelo nariz. Não, meu Nêgo, não traia nunca essa força, não: essa força que mora em seu coração. (…) No coração da mata gente quer prosseguir: quer durar, quer crescer, quer luzir. (…) Gente espelho de estrelas, reflexo do esplendor: se as estrelas são tantas, só mesmo o amor. (…) Gente espelho da vida, doce mistério.' (VELOSO, C.)
‘Está certo dizer que estrelas estão no olhar de alguém que o amor te elegeu pra amar. (…) Gente viva, brilhando estrelas na noite. Gente quer comer, gente quer ser feliz, gente quer respirar ar pelo nariz. Não, meu Nêgo, não traia nunca essa força, não: essa força que mora em seu coração. (…) No coração da mata gente quer prosseguir: quer durar, quer crescer, quer luzir. (…) Gente espelho de estrelas, reflexo do esplendor: se as estrelas são tantas, só mesmo o amor. (…) Gente espelho da vida, doce mistério.’ (VELOSO, C.)


Contos de Verão XIII: A morada.

10 de abril de 2016 por Camila

‘You’ve got to give a little, take a little and let your poor heart break a little: that’s the story of, that’s the glory of love. (…) As long as there’s the two of us, we’ve got the world and all its charms. And when the world is through with us, we’ve got each other’s arms.’

(HILL, B.)

Cinco. Cinco foi o número total de pessoas que me perguntaram de (e sobre!) você nesse fim de semana. Nas minhas contas – e tendo em vista que já não estamos juntos há anos -, bastante gente. Se elas soubessem o efeito que o som do seu nome causa em mim, não teriam ousado sequer balbuciar. Nem tampouco ecoariam suas convicções a nosso respeito: que lindo casal fazíamos, o quão era evidente a sua felicidade ao meu lado, a paz e a tranqüilidade que passaram a fazer parte de você depois de mim, maldades diversas sobre a sua atual situação, o estado de bem que viam você quando estava comigo e, por fim, o quanto soava óbvio a todos que nós nos completávamos.

Pois é. Eu tive que ouvir tudo isso enquanto batia vodka com melancolia e frutas tropicais e entornava a dose em goles sedentos e cavalares. Só parava com a gula alcóolica para amarelar o sorriso, fingir satisfação, disfarçar a nostalgia e responder sem graça: -É, nós não estamos mais juntos. Terminamos há algum tempo já. As pessoas não escondiam o choque e, virando a cabeça de lado, tocavam o meu ombro desnudo e sardento. Eu me enchia de espíritos e replicava: -Está tudo bem, nós dois estamos bem. Tentei dançar para sentir menos saudade e, ao fechar os olhos na busca de um transe musical, via apenas o seu rosto fazendo as expressões mais bobas, taradas, bravas e ciumentas da história enquanto o meu vestido subia acima dos joelhos e a minha cintura girava. Sua língua roçando os seus lábios, você me puxando pelas mãos e dizendo: -Meu Amor, já chega de dança. E de vodka também. Vamos pra casa ver filme e ficar de conchinha? Eu ria da sua cara e respondia que você não era bom em ocultar o seu ‘zelo’. Negava com os dedos, fazia bico e cantarolava que ia dançar até a minha franja grudar na testa e a minha nuca molhasse de suor. Num gesto já automatizado dado o número de repetições que isso acontecia por noite, você suspirava em tom audível, erguia os braços pro ar e se resignava com um mau humor já confortável. Mas você era resiliente porque sabia ser o dono do monopólio da minha felicidade incontestável naqueles dias azuis.

A fantasia persistiu intermitente até o caminhar para casa. Estava intoxicada de você, uma vez mais, e tão longe do alcance das suas mãos. Sonhei com a sua figura durante o percurso sádico de uma noite inteira: você comigo, você sem mim, nós juntos, nós sem nós, a continuidade da sua vida, o seguimento da minha, as possibilidades infinitas de um futuro que não houve e o quão pouco sentido faz essa separação forjada num desejo contínuo de mudança. A minha carne ainda arde, reconheço baixinho. Acordava todo o tempo, e, depois de beber água apressadamente na contenção infantil dos prejuízos de uma ressaca iminente, sempre voltava ao mesmo sonho. Você estava lá (e de novo e de novo e de novo e de novo e de novo!) me deixando sem fôlego e sem opção. Eu só queria a bênção de uma pausa nesses delírios oníricos, mas até a sua voz era palpável e acordei buscando você numa cama que não era exatamente a minha.

O despertar trouxe consigo uma vontade enorme de pegar o telefone, dizer todos os meus sins, me perder no seu corpo e correr para os seus braços que me protegem e me curam. Dizer que vai dar tudo certo, dessa vez. Que eu vou tentar de novo porque acho que esse encontro vale a pena. Que eu vou ceder ao seu charme de domingo como quem adia a dieta para a segunda-feira. Que agora não farei ouvidos moucos aos seus apelos insistentes. Que nós vamos casar, ter filhos e cachorros e morar na praia. Que eu vou fazer Brigadeiro pra você às 2h da manhã se você fizer pipoca pra mim no mesmo horário. Que os meus olhos serão novamente os seus guias. Que as minhas vontades hão de ser, mais uma vez, as suas alegrias. Que as nossas gargalhadas uníssonas serão músicas para quem sabe ouvir melodia desafinada. Que eu não vou mais respirar a tormenta da dúvida. Que eu vou repousar – serena – no seu peito e no lar que você construiu para nós.

Com qual das batidas do seu coração você me faz entender melhor a vida?

Você é a minha morada.

'Y cuando te busco no hay sitio en donde no estés.' <3
‘Y cuando te busco no hay sitio en donde no estés.’ <3