Arquivos

Samba de verão em primavera.

3 de outubro de 2016 por Camila

‘(…) Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que… Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve.’

(ASSIS, M. In ‘Dom Casmurro’.).

Como em um botão de FF dos antigos videocassetes, adianto minha vida de dois anos e meio para cá; para hoje, para você, para mim, para esse futuro (do) presente: o Leão da Pandinha, o Panda da Leãozinho.

Com a força irresistível que você exerce sobre as minhas convicções mais absolutas, o meu eu lírico de observância e resignificâncias do ordinário da vida parece dialogar com o mais forte e racional de mim; o instintivo sem resguardos das mágoas de ontens rasos e livre de licenças poéticas e desculpas das mais variadas para cessar o medo da entrega, da mistura do meu mundo simétrico ao seu tão livre de ordem, da sua boca desenhada no meu corpo, dos seus dedos entrelaçados nos nós dos meus cabelos, do magnético do seu olhar impreciso e cerrado, das suas mãos que me abrem caminhos e cuidados e da sua alegria que revigora o meu espírito cansado de lutar contra um cinismo que parece persistir em zombar de todos os meus esforços em sentido reverso.

Na primeira vez que nos vimos você só falava a quem quisesse ouvir do verde do meu olhar sem saber que eu não tinha nem coragem de encarar o seu. Naquele rio castanho que me decifrava devagar entre silêncios intermitentes e o sorrir pueril, eu já sabia que perderia meu prumo nas correntezas contrárias. Ou que repousaria numa margem sempre tranqüila e acessível para sanar o tédio dos meus dias. Não tinha certezas irrevogáveis, mas as apostas eram altas e claras: como curiosa que sou e sempre pago mais do que devo (ou que posso!) para ver se me arrebento ou tiro a sorte grande, não fugi ao desafio e escolhi me perder na placidez da sua calma que é bálsamo e refúgio para as loucuras das minhas horas.

Setembro em flor, e eu olho para você e entendo porque nos vejo indissociáveis e inteiros a largos prazos. Percebo as suas cores, seu estilo rimado à liberdade, seu gosto de sol nos lábios, o cheiro do vento na sua pele e a certeza dos seus passos ornando meu sorriso. Penso que você me ensinou entre muitas lições a mais importante delas: as pessoas não precisam ser parecidas para se completarem, se assemelharem nos sentimentos e na definição do eterno fugaz da vida. O que eu vejo é o meu amor inteiro ganhando mais amplidão numa só pessoa. Cantarolo – e desafino! – Caê baixinho no seu ouvido (‘…arrastando meu olhar como um ímã.’) e me encolho no seu abraço apertado e quentinho, achando graça na gula da sua mirada e nos impropérios indecentes que você me dirige e que uma moça recatada se recusa a repetir; deixa que seja só para nós nos Dias Brancos do nosso próprio tempo.

Eu amo todas as coisas que você é e tudo aquilo que faz de você, você: eu amo o seu descomplicar.

Portanto, esse aqui é pra você. Porque você existe; sólido e – contrariando Shakespeare! –  sem se desmanchar no ar: pois então, por todas as noites em que você rugiu mais alto que a minha inquietude insone e me colocou no colo para dormir protegida em meio ao meu próprio tumulto de cafeína, palavras, narrativas, romances, dissertações e poesia. Porque foi você quem tirou os meus olhos das linhas tortas dos livros e os fez repousar no horizonte azul e inabalável do mar que por vezes nos cerca. E, sobretudo, porque foi você quem me soprou de volta à vida sem saber que meu corpo já era então uma carcassa de ossos de borboleta.

Obrigada por me fazer respirar.

'(...) O meu coração é o sol, pai de toda cor.'
‘(…) O meu coração é o sol, pai de toda cor.’


Rascunhos de Outono IX: Sobre nós.

23 de abril de 2016 por Camila

‘(…) No, no, no, no! Come, let’s away to prison, we two alone will sing like birds i’ the cage: when thou dost ask me blessing, I’ll kneel down, and ask of thee forgiveness. So we’ll live, and pray, and sing, and tell old tales, and laugh at gilded butterflies, and hear poor rogues talk of court news; and we’ll talk with them too, who loses and who wins; who’s in, who’s out. And take upon’s the mystery of things, as if we were God’s spies: and we’ll wear out in a walled prison packs and sects of great ones that ebb and flow by the moon.’

(SHAKESPEARE, W. In ‘King Lear’: Act V, Scene 3.).

Na noite fria, me sento estrategicamente no banco de mármore branco justo abaixo da enorme figueira no meu jardim. Olho ao redor enquanto seguro uma caneca de chá: o vento faz bagunça, derruba e espalha folhas venenosas pelo chão. Sinto o suspiro da solidão cochichar aos meu ouvidos. Ignoro. Rememoro. E, de repente, tudo é verão outra vez.

O tempo passa por mim. Corre macio, eu nem noto. Se faz gentil: estamos juntos na cidade de leis próprias e pessoas que flanam entre a mediocridade e a magia. Lembro dos nossos pés na areia, da aflição nos meus dedinhos, dos seus beijos apressados cheios de presenças e urgências, do seu espírito oprimindo o meu que fugia para saltar mais alto, da tormenta do mar que é nosso horizonte inteiro, de tudo que você queria e eu neguei e de tudo que eu quis e você não soube como dar.

Desencontros. Perdidos em nós, cegos. A busca sigilosa por atalhos ou por caminhos na lama do fim. As estações mudam, as pessoas mudam. Você acha que eu estou suspensa num espaço inatingível aonde tudo permanece intacto. Digo que não. Agora tenho menos medo, sou mais eu. Endureci. Cresci. Percebo a ironia da vida e a crueldade do mundo. Mas o meu sorriso mole, inocente, torto e fácil me entrega: ainda tateio na cama enorme à procura dos seus braços que são – ainda, sei bem disso – meus também.

Na guerra fastidiosa entre a lonjura e o querer bem, vence o sentimento que rompe as barreiras (intransponíveis, dizem eles!) do silêncio. Entre o lugar que já conheço e me sei confortável e o desconhecido do mundo, me arrisco nas possibilidades fantásticas e impensáveis. O seu relógio é lento e resiliente: me espera nas entrelinhas dos dias e das coisas que existem com a inefável preguiça do ser.

Eles, ignorantes, me perguntam se não tenho medo de perdê-lo para sempre. Respondo que não se pode perder o que não se pode ter: gente é pássaro, pássaro voa pra tocar o azul, o azul é a alma e da alma não se demanda posse. Alma é etérea, tergiverso. Nesse Materialismo Dialético enigmático e impossível do nada ter e tudo me consumir, lembro de Caê cantando que ‘gente é pra brilhar’. E eu cantarolo depois dele a plenos pulmões, desafinada como me é de direito e de dever.

O que me chega em ruídos é o lamento de ver que quem era mágico escolhendo ser comum. Os meus olhos, encantados pelo extraordinário das coisas que sempre foram, eram desenhos de feitiços pelas linhas inexatas do seu corpo e pelo timbre da sua voz sempre grave ou agravada pela falta de esmero de algo e alguém qualquer com coisa alguma. Eu era borboleta pairando pertinho do seu nariz e soprando inadvertidamente algum tipo de leveza no bater das asas quase fatigadas. Hoje você é, me dizem por outros meios, a rotina lenta e absurda das conversas soberbas e conformadas, superficiais e ordinárias, vazias de conteúdo e cheias de vaidade, escassas de gente de verdade e repletas do fosco de quem o cerca.

Fico me perguntando o que fizeram os dias – aliado a ausência de nós – da sua figura. Sinto pena e alguma saudade da imagem que um dia guardei, mas fecho os olhos e aceito o fluir das mudanças como elas são. A existência vã e breve foi somada ao externo empobrecido das coisas (confirmando o que Sartre já sabia!) e precedeu a essência furta-cor que eu percebi, num dia qualquer e já longínquo, em você.

Encontro consolo em não querer querer: quero somente, pondero, ir além de tudo que promete ser amarra e exaustão.

Eu continuo febril, veja você, mesmo quando o cinismo quer me vencer pelo cansaço desse eterno querer.

'Está certo dizer que estrelas estão no olhar de alguém que o amor te elegeu pra amar. (…) Gente viva, brilhando estrelas na noite. Gente quer comer, gente quer ser feliz, gente quer respirar ar pelo nariz. Não, meu Nêgo, não traia nunca essa força, não: essa força que mora em seu coração. (…) No coração da mata gente quer prosseguir: quer durar, quer crescer, quer luzir. (…) Gente espelho de estrelas, reflexo do esplendor: se as estrelas são tantas, só mesmo o amor. (…) Gente espelho da vida, doce mistério.' (VELOSO, C.)
‘Está certo dizer que estrelas estão no olhar de alguém que o amor te elegeu pra amar. (…) Gente viva, brilhando estrelas na noite. Gente quer comer, gente quer ser feliz, gente quer respirar ar pelo nariz. Não, meu Nêgo, não traia nunca essa força, não: essa força que mora em seu coração. (…) No coração da mata gente quer prosseguir: quer durar, quer crescer, quer luzir. (…) Gente espelho de estrelas, reflexo do esplendor: se as estrelas são tantas, só mesmo o amor. (…) Gente espelho da vida, doce mistério.’ (VELOSO, C.)


Contos de Verão XIII: A morada.

10 de abril de 2016 por Camila

‘You’ve got to give a little, take a little and let your poor heart break a little: that’s the story of, that’s the glory of love. (…) As long as there’s the two of us, we’ve got the world and all its charms. And when the world is through with us, we’ve got each other’s arms.’

(HILL, B.)

Cinco. Cinco foi o número total de pessoas que me perguntaram de (e sobre!) você nesse fim de semana. Nas minhas contas – e tendo em vista que já não estamos juntos há anos -, bastante gente. Se elas soubessem o efeito que o som do seu nome causa em mim, não teriam ousado sequer balbuciar. Nem tampouco ecoariam suas convicções a nosso respeito: que lindo casal fazíamos, o quão era evidente a sua felicidade ao meu lado, a paz e a tranqüilidade que passaram a fazer parte de você depois de mim, maldades diversas sobre a sua atual situação, o estado de bem que viam você quando estava comigo e, por fim, o quanto soava óbvio a todos que nós nos completávamos.

Pois é. Eu tive que ouvir tudo isso enquanto batia vodka com melancolia e frutas tropicais e entornava a dose em goles sedentos e cavalares. Só parava com a gula alcóolica para amarelar o sorriso, fingir satisfação, disfarçar a nostalgia e responder sem graça: -É, nós não estamos mais juntos. Terminamos há algum tempo já. As pessoas não escondiam o choque e, virando a cabeça de lado, tocavam o meu ombro desnudo e sardento. Eu me enchia de espíritos e replicava: -Está tudo bem, nós dois estamos bem. Tentei dançar para sentir menos saudade e, ao fechar os olhos na busca de um transe musical, via apenas o seu rosto fazendo as expressões mais bobas, taradas, bravas e ciumentas da história enquanto o meu vestido subia acima dos joelhos e a minha cintura girava. Sua língua roçando os seus lábios, você me puxando pelas mãos e dizendo: -Meu Amor, já chega de dança. E de vodka também. Vamos pra casa ver filme e ficar de conchinha? Eu ria da sua cara e respondia que você não era bom em ocultar o seu ‘zelo’. Negava com os dedos, fazia bico e cantarolava que ia dançar até a minha franja grudar na testa e a minha nuca molhasse de suor. Num gesto já automatizado dado o número de repetições que isso acontecia por noite, você suspirava em tom audível, erguia os braços pro ar e se resignava com um mau humor já confortável. Mas você era resiliente porque sabia ser o dono do monopólio da minha felicidade incontestável naqueles dias azuis.

A fantasia persistiu intermitente até o caminhar para casa. Estava intoxicada de você, uma vez mais, e tão longe do alcance das suas mãos. Sonhei com a sua figura durante o percurso sádico de uma noite inteira: você comigo, você sem mim, nós juntos, nós sem nós, a continuidade da sua vida, o seguimento da minha, as possibilidades infinitas de um futuro que não houve e o quão pouco sentido faz essa separação forjada num desejo contínuo de mudança. A minha carne ainda arde, reconheço baixinho. Acordava todo o tempo, e, depois de beber água apressadamente na contenção infantil dos prejuízos de uma ressaca iminente, sempre voltava ao mesmo sonho. Você estava lá (e de novo e de novo e de novo e de novo e de novo!) me deixando sem fôlego e sem opção. Eu só queria a bênção de uma pausa nesses delírios oníricos, mas até a sua voz era palpável e acordei buscando você numa cama que não era exatamente a minha.

O despertar trouxe consigo uma vontade enorme de pegar o telefone, dizer todos os meus sins, me perder no seu corpo e correr para os seus braços que me protegem e me curam. Dizer que vai dar tudo certo, dessa vez. Que eu vou tentar de novo porque acho que esse encontro vale a pena. Que eu vou ceder ao seu charme de domingo como quem adia a dieta para a segunda-feira. Que agora não farei ouvidos moucos aos seus apelos insistentes. Que nós vamos casar, ter filhos e cachorros e morar na praia. Que eu vou fazer Brigadeiro pra você às 2h da manhã se você fizer pipoca pra mim no mesmo horário. Que os meus olhos serão novamente os seus guias. Que as minhas vontades hão de ser, mais uma vez, as suas alegrias. Que as nossas gargalhadas uníssonas serão músicas para quem sabe ouvir melodia desafinada. Que eu não vou mais respirar a tormenta da dúvida. Que eu vou repousar – serena – no seu peito e no lar que você construiu para nós.

Com qual das batidas do seu coração você me faz entender melhor a vida?

Você é a minha morada.

'Y cuando te busco no hay sitio en donde no estés.' <3
‘Y cuando te busco no hay sitio en donde no estés.’ <3


Amores serão sempre amáveis.

21 de março de 2016 por Camila

São Paulo, 9 de Agosto de 2006.

‘Sim, promessas fiz. Fiz projetos, pensei tanta coisa, e agora o coração me diz que só em teus braços, meu bem, eu ia ser feliz. Eu tenho esse amor para dar, o que é que eu vou fazer? Eu tentei esquecer e prometi apagar da minha vida este sonho, e vem o coração e diz que só em teus braços, amor, eu ia ser feliz. Que só em teus braços, amor.’

(GILBERTO, J.)

F.,

Não me apaixonei por você de maneira lenta e gradual. Eu já era sua quando o vi de longe, cruzando a esquina e completamente incógnito naquele bar sujinho e claustrofóbico. Seria impreciso dizer o tempo, mas quando dei por mim, já tinha me perdido em você.

Acho que tínhamos uns vinteepoucosanos quando você beijou a minha bochecha com a sua boca ébria, e os meus lábios já estavam completamente bêbados de cerveja barata quando eu balbuciei ‘menino doido’ ao vento. Eu nem sabia de mim, mas ouvi o mundo parando para nos sorrir e brindar ao encontro: escutei os nossos amigos entoando canções desafinadas e barulhos de mar e estrelas. Os meus cabelos emaranhados combinavam com os seus jeans surrados e a minha camiseta do Nirvana era parecida com a sua do The Who. Você era a cara do Julian Casablancas, enquanto eu fazia careta pra ‘banda-modinha-cópia-mal-feita-dos-Stones’, mas você era você, e o destino, caprichoso.

O hiato do tempo tão injusto e desigual pausou uma estória que nunca aconteceu mas que nunca foi apagada. Os anos passaram sem graça até que nos reencontramos de forma não-convencional (como tudo que sempre foi tão nosso): eu, sóbria. Você, sorrisos. A história estava escrita, e o nós não podia mais ser adiado. Fui, então, me perder na bagunça da sua vaidade e no seu amor inteiro.

A memória é vívida e prodigiosa: suas lágrimas molhando os meus seios e seu suor na minha boca naquela primeira noite em que dormimos juntos. O seu ‘eu amo você’, a sensação irremediável de realização, a certeza irrevogável que a vida inteira valia aquele momento, os seus dedos passeando pela minha barriga, as nossas conversas de madrugada, a mágica que era o nosso olhar, a sua adoração por mim, os contos mais bonitos de amor que eu escrevi, as nossas pernas entrelaçadas e os seus dentes nas sardas do meu ombro.

Em dias de amor total, houve também a ruptura: as teias e labirintos da vida foram confusões sobre as nossas cabeças. O sol de verão iluminou tudo de pior que havia em você. Eu já não tinha mais brilho. Você me consumia, eu o cuspia. O fogo ardia, mas o coração não aguentava mais um único suspiro. De companheiros, viramos rivais. De entusiasmo, nos tornamos cansaço. O fracasso das forças tornou nossas tentativas em miradas opacas e a desistência anunciou o que temíamos: a separação, o enfrentar em si de hojes sem a mão amiga do outro que era o abrir caminhos de amanhãs.

As noites eram febris e eu pensei que fosse morrer sem o seu corpo junto ao meu: o amor dos vinteepoucosanos sabe ser impiedoso como poucos. Em que mundo haveria de ser possível eu sem você e você sem mim? Você era oxigênio apaixonado para os meus pulmões fatigados do cinismo daqueles que não amam. Você era a recompensa dos que são castigados pelo marasmo dos dias.

Inacreditavelmente, eu sobrevivi. Em longas e imensas horas, a pilha de destruição que você deixou dentro de mim foi diminuindo e eu vi que era completa de novo. Mas você nunca foi anônimo e a sua voz nunca emudeceu. Você nunca foi desimportante, nunca foi qualquer um. Em todos os meus minutos de solidão conjunta com outro alguém ou acompanhada pela sua ausência, você me ensinou tanto sobre tudo em lições silenciosas. No espelho da minha mente, você era o empirismo explícito nos meus passos de pisar em ovos.

Você era paixão crua e desnuda, a minha maçã envenenada na mesa do professor: Com o seu egoísmo, eu aprendi a perdoar. Com as suas dúvidas, eu aprendi o valor da paciência. Com os seus olhos que prenunciavam tempestades castanhas, eu aprendi a sentir medo da chuva. Com os seus beijos, eu aprendi a me entregar. Com o seu toque, eu aprendi o que era ser completamente vulnerável a alguém. Com o seu sangue, eu aprendi o que era me queimar. Com os seus sonhos, eu aprendi o que era acreditar. Com a distorção da sua guitarra, eu aprendi o que era dilacerar de ciúmes e ver a lucidez se esvair de mim. Com os seus erros, eu aprendi o que era crueldade. Com a sua pele, eu aprendi a me misturar e ser menos minha. Com os seus berros, eu aprendi o que era saudade. Com o seu amor, eu aprendi a me fazer inteira. Com a sua dor, eu aprendi a ser mulher. Com a sua confiança, eu aprendi o que era cumplicidade. Com a sua aspereza, eu aprendi o que era verdade. Com a sua luz, eu aprendi a ser sombra. Com você, eu entendi a poesia exagerada e a miudez intransigente do morno. Com a sua inconstância, eu aprendi o vício em adrenalina. Com a sua teimosia, eu aprendi que sabia muito pouco sobre as coisas vis do mundo. Com a sua malícia, eu aprendi a traição da minha inocência. Com o seu tesão, eu aprendi o poder do meu corpo. Com o seu caos da entropia que rege o universo inteiro, eu aprendi o que era perder totalmente o controle.

Por anos, fui a mágoa escrita e a incompreensão de um amor subvertido. Esses dias, ao seu lado novamente, percebi que eu era mesmo gratidão e entendimento por todos os nossos ciclos ininterruptos. Resolvi que contar a minha vida e os meus processos para você – que me conhece de outros ‘lugares ancestrais’ nessa cidade pós-moderna que nos engole – era o sanar que eu precisava da loucura que me consumia por qualquer bobagem. Você, que me sabe de verdade no meu melhor e no meu pior. Você, que nunca esqueceu a data do meu aniversário (nem mesmo nos nossos anos apartados de palavras e contato!), mesmo quando vinha me desejar ‘Feliz Páscoa!’, naquele seu humor mordaz e tipicamente inglês. Você, me cantando Caetano baixinho e disperso enquanto dedilhava o violão para fazer a minha raiva por coisa qualquer passar (e gargalhava o seu sorriso irresistivelmente torto quando eu jogava o travesseiro na sua direção e o expulsava do quarto trancando a porta na casa que não era minha). Você, que me viu tão eu: que tinha me enxergado tão leoa quanto temor, tão frágil quanto forte. Que teve de mim os excessos bipolares, mas nunca o equilíbrio.

Com a pressa das semanas que passam se atropelando enquanto deliramos macios, você achou que seria uma boa idéia consertar o nosso passado e fazer de nós presente naquela noite de vinhos e confissões. Disse – com os mesmos olhinhos gulosos de outrora – que os nossos corpos já se conheciam tão bem quanto as nossas almas. Antes que as minhas convicções ultrapassadas o empurrasse para longe, você reavivou a velha mania de me roubar beijos ao me puxar pela nuca e me prender nos seus abraços. Você me calou com a sua boca uma vez mais. Engasguei. Perdi o fôlego. Depois, esfregando o meu nariz contra o seu e misturando a minha respiração com a sua, abaixei a cabeça e sorri em silêncio como da primeira vez (com você é tudo sempre como se fosse a primeira de todas as vezes que jamais cessam em se repetir).

Tudo o que reluz nessa Terra-De-Meu-Deus-Sem-Tamanho-E-Sem-Porquê sabe que não sou afeita à novas chances, mas com você danço o Samba da Volta. Porque – justifico a mim mesma enigmaticamente como a Bruta Flor de um querer – você é você e isso é ‘o começo e o fim de tudo’.

Paro e penso que, dos que vieram antes de você, eu já nem me recordo. E todos os que vieram depois foram somente isso: depois de você. De você, divisor das minhas visões de mundo em antes e pós-presença. Em você, suspensão de eras no espaço sideral que não me cabe enquanto a vida fingia passar e eu matava instantes imediatos buscando a sua pele em todos aqueles que eu não permitia que tocassem em mim o que eu fui para você: eles eram somente ruídos, enquanto você era a música inteira.

Obrigada por continuar me ensinando o valor da coragem de estar com quem nos enche de borboletas o estômago ulcerado e com quem muda tudo de lugar para reconstruir um tempo que nunca se perdeu.

Os anos nos devoram como goles sedentos por Milk Shakes na Avenida Paulista e finalmente entrego a verdade no meu sorriso mais bobo: eu realmente amo você de todas as formas que se pode amar alguém,

A.

'(...) You pierce my soul. I am half agony, half hope. (...) I offer myself to you again with a heart even more your own than when you almost broke it eight years and a half ago. (...) I have loved none but you. Unjust I may have been, weak and resentful I have been, but never inconstant. (...) For you alone I think and plan. - Have you not seen this? Can you fail to have understood my wishes? I had not waited even these ten days, could I have read your feelings, as I think you must have penetrated mine. I can hardly write. I am every instant hearing something which overpowers me. You sink your voice, but I can distinguish the tones of that voice, when they would be lost on others. (...) You do believe that there is true attachment and constancy among men. Believe it to be most fervent, most undeviating in F.W..'
‘(…) You pierce my soul. I am half agony, half hope. (…) I offer myself to you again with a heart even more your own than when you almost broke it eight years and a half ago. (…) I have loved none but you. Unjust I may have been, weak and resentful I have been, but never inconstant. (…) For you alone I think and plan. – Have you not seen this? Can you fail to have understood my wishes? I had not waited even these ten days, could I have read your feelings, as I think you must have penetrated mine. I can hardly write. I am every instant hearing something which overpowers me. You sink your voice, but I can distinguish the tones of that voice, when they would be lost on others. (…) You do believe that there is true attachment and constancy among men. Believe it to be most fervent, most undeviating in F.W..’ (AUSTEN, J. in ‘Persuasion’.).


Rascunhos de Outono VIII: Vinte e cinco de fevereiro.

9 de março de 2016 por Camila

‘Must be strangely exciting to watch the stoic squirm. Must be somewhat heartening to watch shepherd meet shepherd.’

(MORISSETTE, A.)

Pois é, a estóica se contorce e oferece uma visão interessante a quem se faz platéia. Zenão de Cítio me julga com miradas de estátua grega e diz que não foi assim que me ensinou. Os Rolling Stones insistem em domar cavalos selvagens que me arrastam pra longe. Mulheres mais fortes me estendem as mãos e me afogam em abraços. George Harrison está convicto de que isso também vai passar. A minha torcida do ‘deixa pra lá’ é enorme e faz barulho quando eu quase ofereço a minha cabeça em bandeja de prata. Apresso o tempo para que chegue o dia do alívio e do encher os pulmões de oxigênio leve, que custa. Olho o calendário e descubro o porquê da tormenta inconsciente: 25 de Fevereiro de doismilequalquercoisa.

Na solidão contínua do 25 de Fevereiro que já dura 145 horas e que é puro temporal aonde vivo, vi por uma imagem cheia de reticências que o seu foi de azul e muito sol. E aí percebi – com o rosto molhado de nuvem e idéias – que depois de você, vai ser difícil que os vinteecincodefevereiros dos meus anos sejam dias comuns ou de amnésia seletiva na minha existência vã.

Os vinteecincodefevereiros se tornaram dias mágicos quando, há anos atrás, você entrou na minha vida, encheu a minha barriga de borboletas ao esvaziar simultaneamente o meu coração de angústia e decidiu por si que nós teríamos uma história ímpar pra contar a qualquer um que quisesse ouvir alguém falar de amor. Não foi fácil, digo, você não entrou em mim de uma maneira fácil: você chegou dilacerando as minhas certezas enquanto eu desligava o botão do seu cinismo ao estilhaçar a maldade arisca e incógnita nos seus olhinhos negros.

Enquanto a agonia me consumia feito fogo que lateja calado e eu ardia em chamas de memórias ao criar os piores diálogos que habitavam uma paisagem que não era eu, você se perdia em outros beijos (frios, mecânicos, vulgares e mentirosos, mas beijos) e construía novas lembranças. Chorei. Soluçando e com dor de estômago, pedi a Deus – bem baixinho, mas com fervor! – que você se extinguisse em mim como o silêncio nas multidões que – ainda, que ironia! – nos observam. Sei que você ainda sabe de mim e dos horizontes que me formam ao esmiuçar tudo o que sou. Sei o que sei de você, que eu sempre soube sabê-lo tão bem em tantas minúcias e defeitos.

Olho pros lados e vago em busca de distrações. Leio e não me concentro. Trabalho e jogo tudo para o alto. Dou a cara pro tapa e não abaixo a guarda. Tomo café e queimo a boca. Masco chicletes de hortelã e mordo a língua. Vou ao parque encher a boca de vinho e penso em ir ao cinema (que íamos tão pouco por ter muito sobre o que conversar e, obviamente, passar mais de 1h em silêncio não era natural para nós quando estávamos juntos): lembro que nos ocupávamos falando de paixões e Chuvas de Novembro, de projetos, de soluções, de novidades, do caos, da posição exata das sua mãos me puxando pelos quadris e despenteando os meus cabelos, da provocação dos elogios tão desbocados quanto deliciosos, da elocubração da vida que construíamos e da que gostaríamos de ter. Juntos sempre, e talvez oferecendo algum significado material e humano ao conceito surreal de ‘simbiose’. Toda a amplidão do tempo raro e incomum, pele em pele, até eu tropeçar nos seus pés que me seguiam pelos meus caminhos sempre tortos. E agora, nessas voltas apressadas que o mundo dá, morro de pena e melancolia quando você mesmo me diz que tudo o que você faz é ir a uma sala escura para assistir sucessos de bilheteria superficiais enquanto emudece em outras vidas fictícias e empobrece com o passar das horas ordinárias.

Contemporizo. Sinto sua falta. Sintonizo suas palavras e tenho medo de que você me procure e me peça pra voltar mais uma vez, porque não vou conseguir ser forte como na semana passada em que neguei sonoramente. Começo a me afogar em autocomiseração e pago o preço da dúvida. Repito que não posso voltar atrás nas decisões que eu tomei de ser grande. Componho cânticos e começo a entoar como se fossem Mantras sagrados de fortalezas e convencimentos. Preciso acreditar. Ignoro o meu nascimento plástico há trintaetrêsanosatrás. A tristeza quer fazer de mim morada intransponível e eu culpo o inferno astral, mas minhas mãos são mais rápidas na busca das armas e do esquecimento lento e periódico. Descubro, só por cinco minutinhos de perfeição, que ainda há mundo. E aí me vou.

Fujo. Milhas. Léguas. Kilômetros. Anos-Luz. Qualquer medida de tempo e espaço, desde que seja provisória e imediata. Vou pra cidade que sempre me foi cura para me perder nas esquinas que não há e, quando volto ao meu lugar claustrofóbico, me desespero mais uma vez ao encontrar a poeira vermelha daquele chão de verão nas barras das minhas calças jeans e nas solas dos meus sapatos que são o constatar preciso e inescrutável de que tudo se desmancha no concreto do asfalto, até mesmo nós (outrora tão cegos e eternos).

A poesia indefectível e abstrata da 109 Sul. Brasília não é tão concreta assim.
A poesia indefectível e abstrata da 109 Sul. Brasília não é tão concreta assim.