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Rascunhos de Outono IX: Xícara de café.

2 de maio de 2016 por Camila

‘She was almost in love with him. No, that’s impossible, she thought: either you are or you aren’t. Love’s the only thing in this world that is unequivocal. There are different kinds of love, certainly, but it’s a you-do or you-don’t proposition with them all. She was a person who, when confronted with an easy way out, always took the hard way. (…) There would be searching of hearts, fevers and frets, long looks at each other on the post office steps, and misery for everybody. (…) She set about restoring peace with honor.’

(LEE, H. In ‘Go Set A Watchman’.). 

Nós sempre dividíamos uma xícara de café depois do jantar. Assim, você deliberava, nenhum de nós perderia o sono por excesso de cafeína. Desde então, jamais consegui tomar mais do que a minha metade devida. Continuo acordada, mas a culpa não é do café. Talvez seja sua e da (re) impressão dos nossos velhos hábitos na minha vida.

Tenho pensado em como eram as coisas antes de você. Com alguma dificuldade, admito baixinho (ou berrando aos quatro cantos, depende do meu humor!) que tudo era seguramente mais leve e menos complicado. E tenho me sentido infinitamente melhor por saber que nem sempre andei em cacos, a passos Niilistas, espírito amedrontado, carne embrutecida ou como que quebrada displicentemente ao meio.

Mas ando. Ando até a padaria e faço festa com os carboidratos. Ando até a academia e descarrego a culpa. Ando pelas esquinas e ainda espero o meu sorriso. Ando até o empório e descubro que vinho faz milagres. Ando até a livraria e encontro os melhores e mais inteligentes amigos para me acompanhar nas horas lentas dos dias e no silêncio que é ruído na noite. Ando pelas ruas e só encontro a solidão. Ando em outros corpos e sinto o gosto do arrependimento misturado à saliva nos meus lábios. E ando encontrando soluções pros problemas que eu nem sabia que tinha.

Voltei a ouvir as bandas que você amava dizer que detestava mas que nunca tinha sequer ouvido. Agora enxergo também o azul do céu, o doce da rotina longe do caos existencial do outro, o belo que há no desconhecer, a liberdade que há em respirar, o caminhar isento da fragilidade das cascas de ovos, a coragem de deixar alguém entrar, a tranquilidade de saber que a mentira jamais se sobressairá à verdade, a possibilidade ampla de decidir sozinha sobre o meu destino, o prazer de ir desacompanhada ao cinema, a criação de novos laços nos minutos em que estou viva, o desassossego que me move além da minha zona de conforto, o descobrir de sutilezas e a paz que abafa gritos inertes e suspensos no ar.

Retorno a mim, pacata: ao meu ser que se mistura em tudo que toca, que compra girassóis, que pisa em nuvens, que engole o mundo, que tem preguiça da maldade, que se perde na imensidão da cidade, que abraça com o que pode, que lê nas entrelinhas, que acredita no impossível, que gosta da nostalgia do tempo, que se dedica ao observar das coisas, que toma banho de chuva e que se faz abrigo no regozijo que só a simplicidade traz.

Quando passa o pesar e a saudade vira ponto pacífico, concluo que foi um existir, esse nosso, talvez indevido ou injusto. Eu não tenho a forma da mulher perfeita pra você ou você a personalidade do homem que me faria feliz. Mas existimos, dentre e sobre todas as coisas, existimos. E cessamos. O fim não foi sereno, e nem poderia: afinal, não foi de um jeito fácil que você entrou na minha vida ou que permaneceu nela por quase uma década. Fiz, tenho certeza, a escolha mais acertada, mas por certa constância dolorida. E como latejava, Deus do Céu!, como latejava.

Você me pede notícias nesse ecoar de silêncios, sinais de fumaça, algum mínimo de contato, palavras ao vento ou coisa qualquer. Eu respondo hoje sem o cinismo que por algum tempo fez morada entre nós:

-Vou bem, obrigada.

De você, não levo ou trago mais nada. Nem lembrança e nem futuro. Nem mágoa e nem perdão. Nem entendimento e nem confusão. Nem amizade e nem indiferença.

Eu? Somente sou.

Você? Apenas era.

'(...) On any other day she would have stood barefoot on the wet grass listening to the mockingbirds' early service; she would have pondered over the meaninglessness of silent, austere beauty renewing itself with every sunrise and going ungazed at by half the world. She would have walked beneath yellow-ringed pines rising to a brilliant eastern sky, and her senses would have succumbed to the joy of the morning. It was waiting to receive her, but she neither looked nor listened. She had two minutes of peace before yesterday returned: nothing can kill the pleasure of one's first cigarette on a new morning. Jean Louise blew smoke carefully into the still air.' (LEE, H. In 'Go Set A Watchman'.).
‘(…) On any other day she would have stood barefoot on the wet grass listening to the mockingbirds’ early service; she would have pondered over the meaninglessness of silent, austere beauty renewing itself with every sunrise and going ungazed at by half the world. She would have walked beneath yellow-ringed pines rising to a brilliant eastern sky, and her senses would have succumbed to the joy of the morning. It was waiting to receive her, but she neither looked nor listened. She had two minutes of peace before yesterday returned: nothing can kill the pleasure of one’s first cigarette on a new morning. Jean Louise blew smoke carefully into the still air.’ (LEE, H. In ‘Go Set A Watchman’.).


Rascunhos de Outono IX: Sobre nós.

23 de abril de 2016 por Camila

‘(…) No, no, no, no! Come, let’s away to prison, we two alone will sing like birds i’ the cage: when thou dost ask me blessing, I’ll kneel down, and ask of thee forgiveness. So we’ll live, and pray, and sing, and tell old tales, and laugh at gilded butterflies, and hear poor rogues talk of court news; and we’ll talk with them too, who loses and who wins; who’s in, who’s out. And take upon’s the mystery of things, as if we were God’s spies: and we’ll wear out in a walled prison packs and sects of great ones that ebb and flow by the moon.’

(SHAKESPEARE, W. In ‘King Lear’: Act V, Scene 3.).

Na noite fria, me sento estrategicamente no banco de mármore branco justo abaixo da enorme figueira no meu jardim. Olho ao redor enquanto seguro uma caneca de chá: o vento faz bagunça, derruba e espalha folhas venenosas pelo chão. Sinto o suspiro da solidão cochichar aos meu ouvidos. Ignoro. Rememoro. E, de repente, tudo é verão outra vez.

O tempo passa por mim. Corre macio, eu nem noto. Se faz gentil: estamos juntos na cidade de leis próprias e pessoas que flanam entre a mediocridade e a magia. Lembro dos nossos pés na areia, da aflição nos meus dedinhos, dos seus beijos apressados cheios de presenças e urgências, do seu espírito oprimindo o meu que fugia para saltar mais alto, da tormenta do mar que é nosso horizonte inteiro, de tudo que você queria e eu neguei e de tudo que eu quis e você não soube como dar.

Desencontros. Perdidos em nós, cegos. A busca sigilosa por atalhos ou por caminhos na lama do fim. As estações mudam, as pessoas mudam. Você acha que eu estou suspensa num espaço inatingível aonde tudo permanece intacto. Digo que não. Agora tenho menos medo, sou mais eu. Endureci. Cresci. Percebo a ironia da vida e a crueldade do mundo. Mas o meu sorriso mole, inocente, torto e fácil me entrega: ainda tateio na cama enorme à procura dos seus braços que são – ainda, sei bem disso – meus também.

Na guerra fastidiosa entre a lonjura e o querer bem, vence o sentimento que rompe as barreiras (intransponíveis, dizem eles!) do silêncio. Entre o lugar que já conheço e me sei confortável e o desconhecido do mundo, me arrisco nas possibilidades fantásticas e impensáveis. O seu relógio é lento e resiliente: me espera nas entrelinhas dos dias e das coisas que existem com a inefável preguiça do ser.

Eles, ignorantes, me perguntam se não tenho medo de perdê-lo para sempre. Respondo que não se pode perder o que não se pode ter: gente é pássaro, pássaro voa pra tocar o azul, o azul é a alma e da alma não se demanda posse. Alma é etérea, tergiverso. Nesse Materialismo Dialético enigmático e impossível do nada ter e tudo me consumir, lembro de Caê cantando que ‘gente é pra brilhar’. E eu cantarolo depois dele a plenos pulmões, desafinada como me é de direito e de dever.

O que me chega em ruídos é o lamento de ver que quem era mágico escolhendo ser comum. Os meus olhos, encantados pelo extraordinário das coisas que sempre foram, eram desenhos de feitiços pelas linhas inexatas do seu corpo e pelo timbre da sua voz sempre grave ou agravada pela falta de esmero de algo e alguém qualquer com coisa alguma. Eu era borboleta pairando pertinho do seu nariz e soprando inadvertidamente algum tipo de leveza no bater das asas quase fatigadas. Hoje você é, me dizem por outros meios, a rotina lenta e absurda das conversas soberbas e conformadas, superficiais e ordinárias, vazias de conteúdo e cheias de vaidade, escassas de gente de verdade e repletas do fosco de quem o cerca.

Fico me perguntando o que fizeram os dias – aliado a ausência de nós – da sua figura. Sinto pena e alguma saudade da imagem que um dia guardei, mas fecho os olhos e aceito o fluir das mudanças como elas são. A existência vã e breve foi somada ao externo empobrecido das coisas (confirmando o que Sartre já sabia!) e precedeu a essência furta-cor que eu percebi, num dia qualquer e já longínquo, em você.

Encontro consolo em não querer querer: quero somente, pondero, ir além de tudo que promete ser amarra e exaustão.

Eu continuo febril, veja você, mesmo quando o cinismo quer me vencer pelo cansaço desse eterno querer.

'Está certo dizer que estrelas estão no olhar de alguém que o amor te elegeu pra amar. (…) Gente viva, brilhando estrelas na noite. Gente quer comer, gente quer ser feliz, gente quer respirar ar pelo nariz. Não, meu Nêgo, não traia nunca essa força, não: essa força que mora em seu coração. (…) No coração da mata gente quer prosseguir: quer durar, quer crescer, quer luzir. (…) Gente espelho de estrelas, reflexo do esplendor: se as estrelas são tantas, só mesmo o amor. (…) Gente espelho da vida, doce mistério.' (VELOSO, C.)
‘Está certo dizer que estrelas estão no olhar de alguém que o amor te elegeu pra amar. (…) Gente viva, brilhando estrelas na noite. Gente quer comer, gente quer ser feliz, gente quer respirar ar pelo nariz. Não, meu Nêgo, não traia nunca essa força, não: essa força que mora em seu coração. (…) No coração da mata gente quer prosseguir: quer durar, quer crescer, quer luzir. (…) Gente espelho de estrelas, reflexo do esplendor: se as estrelas são tantas, só mesmo o amor. (…) Gente espelho da vida, doce mistério.’ (VELOSO, C.)


Rascunhos de Outono VIII: Vinte e cinco de fevereiro.

9 de março de 2016 por Camila

‘Must be strangely exciting to watch the stoic squirm. Must be somewhat heartening to watch shepherd meet shepherd.’

(MORISSETTE, A.)

Pois é, a estóica se contorce e oferece uma visão interessante a quem se faz platéia. Zenão de Cítio me julga com miradas de estátua grega e diz que não foi assim que me ensinou. Os Rolling Stones insistem em domar cavalos selvagens que me arrastam pra longe. Mulheres mais fortes me estendem as mãos e me afogam em abraços. George Harrison está convicto de que isso também vai passar. A minha torcida do ‘deixa pra lá’ é enorme e faz barulho quando eu quase ofereço a minha cabeça em bandeja de prata. Apresso o tempo para que chegue o dia do alívio e do encher os pulmões de oxigênio leve, que custa. Olho o calendário e descubro o porquê da tormenta inconsciente: 25 de Fevereiro de doismilequalquercoisa.

Na solidão contínua do 25 de Fevereiro que já dura 145 horas e que é puro temporal aonde vivo, vi por uma imagem cheia de reticências que o seu foi de azul e muito sol. E aí percebi – com o rosto molhado de nuvem e idéias – que depois de você, vai ser difícil que os vinteecincodefevereiros dos meus anos sejam dias comuns ou de amnésia seletiva na minha existência vã.

Os vinteecincodefevereiros se tornaram dias mágicos quando, há anos atrás, você entrou na minha vida, encheu a minha barriga de borboletas ao esvaziar simultaneamente o meu coração de angústia e decidiu por si que nós teríamos uma história ímpar pra contar a qualquer um que quisesse ouvir alguém falar de amor. Não foi fácil, digo, você não entrou em mim de uma maneira fácil: você chegou dilacerando as minhas certezas enquanto eu desligava o botão do seu cinismo ao estilhaçar a maldade arisca e incógnita nos seus olhinhos negros.

Enquanto a agonia me consumia feito fogo que lateja calado e eu ardia em chamas de memórias ao criar os piores diálogos que habitavam uma paisagem que não era eu, você se perdia em outros beijos (frios, mecânicos, vulgares e mentirosos, mas beijos) e construía novas lembranças. Chorei. Soluçando e com dor de estômago, pedi a Deus – bem baixinho, mas com fervor! – que você se extinguisse em mim como o silêncio nas multidões que – ainda, que ironia! – nos observam. Sei que você ainda sabe de mim e dos horizontes que me formam ao esmiuçar tudo o que sou. Sei o que sei de você, que eu sempre soube sabê-lo tão bem em tantas minúcias e defeitos.

Olho pros lados e vago em busca de distrações. Leio e não me concentro. Trabalho e jogo tudo para o alto. Dou a cara pro tapa e não abaixo a guarda. Tomo café e queimo a boca. Masco chicletes de hortelã e mordo a língua. Vou ao parque encher a boca de vinho e penso em ir ao cinema (que íamos tão pouco por ter muito sobre o que conversar e, obviamente, passar mais de 1h em silêncio não era natural para nós quando estávamos juntos): lembro que nos ocupávamos falando de paixões e Chuvas de Novembro, de projetos, de soluções, de novidades, do caos, da posição exata das sua mãos me puxando pelos quadris e despenteando os meus cabelos, da provocação dos elogios tão desbocados quanto deliciosos, da elocubração da vida que construíamos e da que gostaríamos de ter. Juntos sempre, e talvez oferecendo algum significado material e humano ao conceito surreal de ‘simbiose’. Toda a amplidão do tempo raro e incomum, pele em pele, até eu tropeçar nos seus pés que me seguiam pelos meus caminhos sempre tortos. E agora, nessas voltas apressadas que o mundo dá, morro de pena e melancolia quando você mesmo me diz que tudo o que você faz é ir a uma sala escura para assistir sucessos de bilheteria superficiais enquanto emudece em outras vidas fictícias e empobrece com o passar das horas ordinárias.

Contemporizo. Sinto sua falta. Sintonizo suas palavras e tenho medo de que você me procure e me peça pra voltar mais uma vez, porque não vou conseguir ser forte como na semana passada em que neguei sonoramente. Começo a me afogar em autocomiseração e pago o preço da dúvida. Repito que não posso voltar atrás nas decisões que eu tomei de ser grande. Componho cânticos e começo a entoar como se fossem Mantras sagrados de fortalezas e convencimentos. Preciso acreditar. Ignoro o meu nascimento plástico há trintaetrêsanosatrás. A tristeza quer fazer de mim morada intransponível e eu culpo o inferno astral, mas minhas mãos são mais rápidas na busca das armas e do esquecimento lento e periódico. Descubro, só por cinco minutinhos de perfeição, que ainda há mundo. E aí me vou.

Fujo. Milhas. Léguas. Kilômetros. Anos-Luz. Qualquer medida de tempo e espaço, desde que seja provisória e imediata. Vou pra cidade que sempre me foi cura para me perder nas esquinas que não há e, quando volto ao meu lugar claustrofóbico, me desespero mais uma vez ao encontrar a poeira vermelha daquele chão de verão nas barras das minhas calças jeans e nas solas dos meus sapatos que são o constatar preciso e inescrutável de que tudo se desmancha no concreto do asfalto, até mesmo nós (outrora tão cegos e eternos).

A poesia indefectível e abstrata da 109 Sul. Brasília não é tão concreta assim.
A poesia indefectível e abstrata da 109 Sul. Brasília não é tão concreta assim.


Rascunhos de Outono VII: Tardes de junho.

1 de maio de 2015 por Camila

Brasília, 20 de junho de 2007.

G.,

Pois bem, hoje é Quinta-Feira. São mais ou menos 210 dias sem você. Dentre muitas outras, algumas considerações: voltei à pipoca de microondas, ao banho gelado, à insônia irrestrita, aos dias vazios, à gente sem graça, à arte abstrata, ao choro no chão da cozinha, à cidade concreta, à ruína de sonhos, aos copos de cerveja sem celebração, à solidão dilacerante do ser e, sobretudo, à ruptura do íntimo.

Faço planos a curto prazo porque não sei se terei paciência para lidar com o arrastar das horas e o atraso do futuro, que nunca chega. Tudo demora: O esquecer demora, o desligar-se do outro demora, o abandonar de corpos demora, o gosto amargo nos lábios demora, o secar das lágrimas demora, a esperança de que você mude de idéia e resolva chegar demora (a passar).

Você era você, e perto desse aforismo que trata de atestar o óbvio, lhe digo quase que vulgarmente: os outros são apenas os outros e o resto do mundo me enche de preguiça, indiferença e desinteresse. A garrafa vazia de café me frustra, o espaço desocupado me inquieta, o colchão parece grande demais e os livros não me contam histórias bonitas. Aliás, ninguém tem me contado coisas bonitas. Abro um parêntese para criar uma teoria tola e infundada, mas  seria  impressão minha ou estamos todos de ressaca do sentir?

Lembro dos nossos dias de faculdade e quase cesso nesse meu existir patético: Eu tão virgem enquanto tentava salvar o mundo com as teorias Marxistas-Leninistas e você proclamando poesia com os pulmões plenos de oxigênio e os olhos cheios de paixão. Você falava em Caio Fernando Abreu, Bukowski, Kerouac, Ana C., Nietzsche, Marçal Aquino, Ginsberg, no alter ego de Fante e nos livros que mais tarde iriam mesmo mudar a minha vida (como você, dono dos meus dias vindouros, já previra). Na direção de Truffaut, Godard, Bertolucci, Pasolini, Tornatore, Fellini, Glauber Rocha e Scorsese. Eu só sabia discorrer sobre política e sociologia enquanto você insistia que nossas únicas salvações possíveis eram a literatura e o cinema. Eu temia escrever sobre sentimentos, e você só me lançava uma mirada como quem olha o desperdício em um silêncio constrangedor.

Uma noite, depois de uma longa reunião do Diretório Estudantil, você me esperava e me chamou para sair ao me ver deixando a sala. Fomos a um boteco sujo, andando entre afastados e a vontade de segurar a mão do outro, como que perdidos entre possibilidades. Você começava a profetizar aquela mesma ladainha de que a literatura era o que ia nos salvar dessa loucura que é a vida, então eu acendia meu cigarro, tragava longamente e pensava se era mesmo tão relevante assim sentir alguma coisa por alguém ou pela idéia de amar. Se era mais urgente e mais merecedor da minha atenção do que a fome dos povos, as injustiças dos homens, a propriedade desigual e as pestes que assolam a humanidade. Sorria de canto de boca pra você e, já meio trôpega de tanta vodka, soprava a fumaça na sua cara enquanto você me mandava vestir a jaqueta por cima da minha blusa do Che Guevara, já que estava frio e não era bom arriscar uma gripe. Eu achava que você era uma gracinha com todas as suas idéias de amor, suas olheiras, sua barba mal feita, seus óculos que iam escorregando até o seu nariz e seu descaso pelo materialismo dialético (que me era tão vital!), mas você era do sentir e eu queria ir lutar. Um dia, eventualmente, você me convenceu e o céu foi mais azul.

Sinto saudades: Uma saudade enorme (e que me engole!) de você me abraçando na cozinha enquanto eu fazia brigadeiro, de você me acordando para pedir um abraço, de olhar para janela enquanto esperava a sua chegança, do barulho da sua máquina de escrever, do seu pé quentinho entrelaçado ao meu na bagunça que era a nossa cama, de você levando o cachorro para passear, de você me fotografando com o olhar com seus ângulos tão especiais, de você me roubando sorrisos, de você enchendo a minha taça de vinho tinto (‘você fica tão linda bêbada, Meu Amor!’), de quando você me beijava em luz e cor, de você saindo de casa precisamente às 18h para comprar pão quentinho na padaria da esquina, de você me acordando no sofá para levar para cama quando eu adormecia com a cara enfiada nos livros, de você me pedindo filhos, de você limpando os meus óculos de grau, das suas mãos sujas de tinta, da sua leveza, do seu lirismo, de você tirando a minha franja do rosto enquanto eu dançava e suava, de você tocando violão, de você me fazendo sua sem me exigir o apartar do mundo, do seu cheirinho de mar que nunca foi perdido em meio ao caos da cidade, de você sendo livre ao meu lado e, mais que tudo, de você existindo comigo. Nas minhas memórias mais doces, somos dois e estamos da nossa casa olhando a rua que passa sem porquê, sem premissa, sem prelúdio e sem samba.

Quando eu caí de cara (e me ralei inteira!) no cimento do mundo real e comecei a aceitar que Maquiavel era quem sabia mesmo das coisas, você me salvou do cinismo ao me dar a antologia do Neruda e o vinil do Chico Buarque. E eu vi, naquele valioso e deslumbrante instante, que você tinha razão desde os muitos outros anos anteriores quando perdi o meu coração para você: Só mesmo a arte pode salvar esse mundo que tem seu charme de caso perdido. O único importar é do que sentimos e do que fazemos em relação a isso. Eu sinto e eu me importo.

Ouço Crosby, Stills, Nash & Young e concluo: Hoje, 210 dias depois de você, eu sou só melancolia. E espero que você seja só vida.

Te quero sempre bem, meu querido.

M.

Do café frio, da letra trêmula, do abandono das coisas e da saudade latejante.
Do café frio, da letra trêmula, do abandono das coisas e da saudade latejante.


Rascunhos de Outono VI: Carta de Carnaval.

29 de abril de 2015 por Camila

Oslo, 9 de janeiro de 1973.

Amado T.,

Pois permita que diga-lhe algo sem muita brevidade ou cerimônia: Eu sinto muita pena de nós, muita pena por nós. Do que poderíamos ter sido, do que fomos, do que jamais seremos. Sinto pena pela não-aceitação plena e mútua do que é o outro e seu mundo, pelas cicatrizes nas almas ambíguas, pelos pesos das escolhas, pelas idéias adjacentes e paralelas, pelas consequências atribuídas a toda ação irresponsável e impensada.

T., querido  – tão doce querido – meu!, eu sinto tanta… pena. Que teríamos sido nós se não fôssemos nós mesmos? Desate. Que poderia o mundo ter feito de nós se os laços fossem em outras circunstâncias? Grite, meu bem, ‘grite poesias que eu ouvirei’. Mas esse seu silêncio eloquente e frustrante em nada ajuda: Digo-lhe aqui (e sem testemunhas deste tempo escasso), que este seu silêncio – veja você – é tão somente torpe e vil, é insone e injusto.

Onde estão os seus passos nos meus caminhos incertos e suas observações nas minhas gramáticas disléxicas? Onde está aquela xícara de café que você me trazia e eu esquecia até esfriar? Onde estão as notas das primeiras canções entoadas tão e sobretudo em desafino novíssimo e pós-moderno com gargalhadas contornadas nas silhuetas dos lábios e na rouquidão das vozes? Onde estão as promessas, foram entornadas displicentemente ao longo de todo este solo herege? E as páginas dos livros, rasgadas? Vês? Me olhas de viés e já te sei: Me queres em dias de muitos e longos aindas, mas insistes em ludibriar-me sobre isso e qualquer outra coisa que me alcance. Porque me enganas em desamor delineado em tons tão menores do que és ou de como enxergo?

Dias amorfos, noites que não cessam em existir, mil coisas para te contar desta terra de sagas  míticas muito poco conhecidas e desbravadas, e nada que seja relevante. Nada, um nada de proporções desmedidas e ignoradas. Desculpas vazias para buscá-lo nas minhas lembranças, na linha do telefonema distante, no telegrama que me chega com assunto vazio (e saudade óbvia e sobreposta!, você não tem jeito e não se disfarça, ainda que cale!) e na sua rispidez que resplandece emergida nas palavras sem cuidado com as quais me responde em cartas quando perde a paciência com as minhas próprias confusões. Estás tentando secar a fonte do que sente, eu sei de tudo aquilo que me explicas, eu estou aí também neste mesmo processo de finais fragmentados e adiados. Manda-me calar a boca e sequer finge arrepender-se de tê-lo feito: É mentira, noto, já não suportas a minha voz mas temes a minha mudez subseqüente e inédita.

Já sabes então que meu sangue é de carnaval e agora -, precisamente neste instante que me cerca e quase morre, e às vésperas de me reinventar em pleno fevereiro de renascimento – nesta cidade tão fria e tão pura não se pode encontrar a malícia de sorrisos bêbados, ritmos frenéticos ou confetes pelo chão. Sofro as lojuras de ti (e por ti, Amor tão meu!), os reflexos da saudade e o absolutismo esmagador das certezas de que algo já não é e par não há. Cambaleio pelas ruas sem destino e convivo com a nostalgia das marchinhas de outrora, relativizando todo o toque que me chega e toda a possibilidade tátil (que anulo com a eficiência alemã impecavelmente mordaz e a pontualidade britânica que vivem aos trancos neste coração vadio e latino que me pulsa). Você ficaria orgulhoso, acredite. Você acusaria secamente ad infinitum aos meus ouvidos que estas são as minhas escolhas e, portanto, mereço a culpa que recai inteiramente sobre mim sem divisores ou dividendos: O débito do tempo de nós que foi perdido é meu, já sei. Nada é simples e tudo que é efêmero padece de para sempre. O tempo me assusta e sua passagem tenta me embrutecer, mas o cinismo niilista do em nada crer jamais me caiu bem.

O caso é que eu te amo. Eu te amo sem fôlego e sem freios.

E beijo-te solenemente em Adeus com um espírito que queima ao som de um vulgar ‘até logo’,

A.

P.S.: Eu tinha toda a intenção do mundo de começar e terminar essa carta com a aposição exata dos pronomes oblíquos átonos somente depois dos verbos para que não lhe doessem aos olhos as minhas grosserias morfológicas ou sintáticas. Como vês – e já me sabes – evaporei as idéias e relutei contra os fatos. Comi verdades e pari as palavras como lhe pude e da única maneira que sei: Em voz ativa – e muito viva, ardendo em brasa e por vezes fagulha! –  e em mil pronomes desordenados e mal alocados, ainda que não menos diretos e extremamente pessoais.

P.S. do P.S.: Que sepas pues que te quiero, cariño. Y mañana te seguiré queriendo mientras me vaya a Barcelona de puta madre a ver si por fin se me quita la tristeza de los ojos llenos de mundo y se me levanta el ánimo… Guardate este bezaso apalabrado que en algún día de esperanza te lo regalo en la boca y en todo tu cuerpo delgado y reconfortante. No te olvides que a esta niña mala le gustan las travesuras y jamás ha podido con su propria alma.

Parti (-me) (em) mundos.
Parti (-me) (em) mundos.