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Sense And Sensibility – Razão E Sensibilidade.

3 de março de 2016 por Camila

Vocês estão lembrados sobre uma promoção generosa da Livraria Cultura numa certa tarde de ócio num domingo qualquer que falei por aqui?

Então, foi lá que eu consegui comprar (quase!) toda a obra da Jane Austen, bem como outros clássicos da literatura inglesa que têm ocupado deliciosamente o meu tempo.

É incrível perceber como grandes escritores conseguem sobreviver às mudanças do mundo, talvez por que apesar de o mundo estar em constante movimento, o ser humano pouco foi alterado em intenções ou sentimentos. Talvez hoje sejamos mais cínicos, embora as motivações sejam – surpreendentemente! – as mesmas (mas essa é apenas uma teoria condescendente).

Jane Austen consegue captar esses traços demasiadamente humanos e transformá-los nas características dos seus imortais personagens. Você nem sempre vai se afeiçoar a todos eles, mas vai entender o valor de cada um a seu tempo e se apaixonar perdidamente pela habilidade da escritora nas suas construções.

Quando comprei a obra da inglesa, conversei com alguns fãs e cada um me indicou uma seqüência pela qual eu deveria lê-la. Escutei todas elas e os motivos sobre os quais eu deveria seguir essa ou aquela sugestão, mas optei por fazer diferente. Como queria estudá-la como romancista, decidi ler os livros pela ordem cronológica em que foram escritos, assim eu poderia entender o amadurecimento de Austen como escritora e alguns dos motivos da sua atemporalidade e imortalidade.

Desse modo, comecei por ‘Sense And Sensibility’ (aqui no Brasil, ‘Razão E Sensibilidade’). Levou um pouco de tempo, no começo, para me habituar com o ritmo da narrativa. Estava acostumada a livros que acontecem rápido, com uma linguagem mais direta e com uma riqueza de detalhes exposta de um jeito distinto. Mas há que se levar em conta que este é um livro publicado em 1811 na Inglaterra da Regência, aonde as pessoas se comportavam e falavam de maneira completamente diferentes de nós. E é aí que eu volto a minha teoria: o mundo mudou, mas as motivações humanas não tanto.

Não é uma leitura fácil, embora seja maravilhosa e tenha me mudado como pessoa em um ou outro grau. É um livro que faz com que você questione suas posturas, o absoluto das suas certezas, seus julgamentos ora impróprios e injustos, sua capacidade de entender o outro pela circunstância das situações, sua resiliência, sua força e sua coragem para derrubar antigas resoluções e partir para recomeços.

Você vai se perguntar como um livro tão antigo pode fazer isso com você, tão moderna (o): você vai chorar, você vai ‘virar a casaca’ o tempo inteiro (#TeamElinor x #TeamMarianne), você vai se desesperar, você vai morrer de ódio dos sentimentos alheios tão menores, você vai ficar com a respiração acelerada por pura ansiedade, você vai perder o sono e virar noites lendo e você vai amar cada palavrinha dos escritos de Jane Austen.

Eu sou incapaz de reproduzir todas as quotes que eu gostaria, porque o meu livro está completamente rabiscado com anotações (e lembranças!) e cheio de post-its, além do que, ia virar spoiler. Mas o que reitero é que clássicos são clássicos por um milhão de motivos, e Jane Austen colocou aqui todos os ingredientes para se certificar de que esse seria um livro que sobreviveria à mundos posteriores ao seu.

Já indiquei este título a um milhão de pessoas e nunca consegui expressar exatamente o porquê de ter mexido tanto comigo de uma maneira muito própria e profunda. Li em tardes de calor, dias de tédio, noites eternas e afogando minha boca em litros de café e de chá: não canso de me repetir ao propagar aos quatro ventos a genialidade de Jane Austen na criação de personagens tão complexos e tão cada um de nós. Sim, não duvide, você está ali. Ora em um ora em outro. E eu, que sempre passei a vida sendo tão Marianne, tenho aprendido com os meus erros e passos incertos o valor de ser mais Elinor.

Enquanto você estiver lendo, eu recomendo que você tenha um pouco de paciência com a diferença da linguagem e abrace todas as mudanças, porque é um livro muito – MUITO! – bonito, muito delicado, muito cuidadoso, muito forte, com reviravoltas que assustam quando você acha que navega em mares tranqüilos, e, por fim, vai fazer com que você se pergunte se é melhor ter juízo ou se é melhor ser puro sentimento quando você não consegue ser os dois ao mesmo tempo (lembre-se, somos apenas humanos).

Não é que tudo dá certo no final o mais importante ou as estórias de amor que são o pano de fundo desse clássico que faz com que esse seja um dos meus livros preferidos de todos os tempos, mas o fato de Jane Austen ter nos ensinado a sermos heroínas da nossa própria história e estarmos dispostas a repensar as nossas atitudes e convicções mais íntimas para abraçar a nossa felicidade.

‘(…) Marianne Dashwood was born to an extraordinary fate. She was born to discover the falsehood of her own opinions, and to counteract, by her conduct, her most favourite maxims’. 

E você aí achando que literatura é só passatempo, né? Tolinho.

– Minha resenha no GoodReads: https://www.goodreads.com/review/show/1334979941

– Interessou? Tem aqui: http://www.livrariacultura.com.br/p/sense-and-sensibility-45675

Enchendo a cestinha e tomando um café na Livraria Cultura. <3
Enchendo a cestinha e tomando um café na Livraria Cultura. <3

 

Tardes de chá e livros pra essa velhotinha que eu sou. ;)
Tardes de chá e livros pra essa velhotinha que eu sou. ;)

 

Lutando contra a Entropia que rege o universo e tentando controlar o caos que tomava a minha cama: livros, diários, anotações, canetas e post-its.
Lutando contra a Entropia que rege o universo e tentando controlar o caos que tomava a minha cama: livros, diários, anotações, canetas e post-its.

 

Suspiros na padoca! <3
Suspiros na padoca! <3

 

Quando você se apaixona tanto assim por um livro, não há o que fazer se não começar a colecionar edições. ;)
Quando você se apaixona tanto assim por um livro, não há o que fazer se não começar a colecionar edições. ;)