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Rascunhos de Outono IX: Xícara de café.

2 de maio de 2016 por Camila

‘She was almost in love with him. No, that’s impossible, she thought: either you are or you aren’t. Love’s the only thing in this world that is unequivocal. There are different kinds of love, certainly, but it’s a you-do or you-don’t proposition with them all. She was a person who, when confronted with an easy way out, always took the hard way. (…) There would be searching of hearts, fevers and frets, long looks at each other on the post office steps, and misery for everybody. (…) She set about restoring peace with honor.’

(LEE, H. In ‘Go Set A Watchman’.). 

Nós sempre dividíamos uma xícara de café depois do jantar. Assim, você deliberava, nenhum de nós perderia o sono por excesso de cafeína. Desde então, jamais consegui tomar mais do que a minha metade devida. Continuo acordada, mas a culpa não é do café. Talvez seja sua e da (re) impressão dos nossos velhos hábitos na minha vida.

Tenho pensado em como eram as coisas antes de você. Com alguma dificuldade, admito baixinho (ou berrando aos quatro cantos, depende do meu humor!) que tudo era seguramente mais leve e menos complicado. E tenho me sentido infinitamente melhor por saber que nem sempre andei em cacos, a passos Niilistas, espírito amedrontado, carne embrutecida ou como que quebrada displicentemente ao meio.

Mas ando. Ando até a padaria e faço festa com os carboidratos. Ando até a academia e descarrego a culpa. Ando pelas esquinas e ainda espero o meu sorriso. Ando até o empório e descubro que vinho faz milagres. Ando até a livraria e encontro os melhores e mais inteligentes amigos para me acompanhar nas horas lentas dos dias e no silêncio que é ruído na noite. Ando pelas ruas e só encontro a solidão. Ando em outros corpos e sinto o gosto do arrependimento misturado à saliva nos meus lábios. E ando encontrando soluções pros problemas que eu nem sabia que tinha.

Voltei a ouvir as bandas que você amava dizer que detestava mas que nunca tinha sequer ouvido. Agora enxergo também o azul do céu, o doce da rotina longe do caos existencial do outro, o belo que há no desconhecer, a liberdade que há em respirar, o caminhar isento da fragilidade das cascas de ovos, a coragem de deixar alguém entrar, a tranquilidade de saber que a mentira jamais se sobressairá à verdade, a possibilidade ampla de decidir sozinha sobre o meu destino, o prazer de ir desacompanhada ao cinema, a criação de novos laços nos minutos em que estou viva, o desassossego que me move além da minha zona de conforto, o descobrir de sutilezas e a paz que abafa gritos inertes e suspensos no ar.

Retorno a mim, pacata: ao meu ser que se mistura em tudo que toca, que compra girassóis, que pisa em nuvens, que engole o mundo, que tem preguiça da maldade, que se perde na imensidão da cidade, que abraça com o que pode, que lê nas entrelinhas, que acredita no impossível, que gosta da nostalgia do tempo, que se dedica ao observar das coisas, que toma banho de chuva e que se faz abrigo no regozijo que só a simplicidade traz.

Quando passa o pesar e a saudade vira ponto pacífico, concluo que foi um existir, esse nosso, talvez indevido ou injusto. Eu não tenho a forma da mulher perfeita pra você ou você a personalidade do homem que me faria feliz. Mas existimos, dentre e sobre todas as coisas, existimos. E cessamos. O fim não foi sereno, e nem poderia: afinal, não foi de um jeito fácil que você entrou na minha vida ou que permaneceu nela por quase uma década. Fiz, tenho certeza, a escolha mais acertada, mas por certa constância dolorida. E como latejava, Deus do Céu!, como latejava.

Você me pede notícias nesse ecoar de silêncios, sinais de fumaça, algum mínimo de contato, palavras ao vento ou coisa qualquer. Eu respondo hoje sem o cinismo que por algum tempo fez morada entre nós:

-Vou bem, obrigada.

De você, não levo ou trago mais nada. Nem lembrança e nem futuro. Nem mágoa e nem perdão. Nem entendimento e nem confusão. Nem amizade e nem indiferença.

Eu? Somente sou.

Você? Apenas era.

'(...) On any other day she would have stood barefoot on the wet grass listening to the mockingbirds' early service; she would have pondered over the meaninglessness of silent, austere beauty renewing itself with every sunrise and going ungazed at by half the world. She would have walked beneath yellow-ringed pines rising to a brilliant eastern sky, and her senses would have succumbed to the joy of the morning. It was waiting to receive her, but she neither looked nor listened. She had two minutes of peace before yesterday returned: nothing can kill the pleasure of one's first cigarette on a new morning. Jean Louise blew smoke carefully into the still air.' (LEE, H. In 'Go Set A Watchman'.).
‘(…) On any other day she would have stood barefoot on the wet grass listening to the mockingbirds’ early service; she would have pondered over the meaninglessness of silent, austere beauty renewing itself with every sunrise and going ungazed at by half the world. She would have walked beneath yellow-ringed pines rising to a brilliant eastern sky, and her senses would have succumbed to the joy of the morning. It was waiting to receive her, but she neither looked nor listened. She had two minutes of peace before yesterday returned: nothing can kill the pleasure of one’s first cigarette on a new morning. Jean Louise blew smoke carefully into the still air.’ (LEE, H. In ‘Go Set A Watchman’.).


Rascunhos de Outono IX: Sobre nós.

23 de abril de 2016 por Camila

‘(…) No, no, no, no! Come, let’s away to prison, we two alone will sing like birds i’ the cage: when thou dost ask me blessing, I’ll kneel down, and ask of thee forgiveness. So we’ll live, and pray, and sing, and tell old tales, and laugh at gilded butterflies, and hear poor rogues talk of court news; and we’ll talk with them too, who loses and who wins; who’s in, who’s out. And take upon’s the mystery of things, as if we were God’s spies: and we’ll wear out in a walled prison packs and sects of great ones that ebb and flow by the moon.’

(SHAKESPEARE, W. In ‘King Lear’: Act V, Scene 3.).

Na noite fria, me sento estrategicamente no banco de mármore branco justo abaixo da enorme figueira no meu jardim. Olho ao redor enquanto seguro uma caneca de chá: o vento faz bagunça, derruba e espalha folhas venenosas pelo chão. Sinto o suspiro da solidão cochichar aos meu ouvidos. Ignoro. Rememoro. E, de repente, tudo é verão outra vez.

O tempo passa por mim. Corre macio, eu nem noto. Se faz gentil: estamos juntos na cidade de leis próprias e pessoas que flanam entre a mediocridade e a magia. Lembro dos nossos pés na areia, da aflição nos meus dedinhos, dos seus beijos apressados cheios de presenças e urgências, do seu espírito oprimindo o meu que fugia para saltar mais alto, da tormenta do mar que é nosso horizonte inteiro, de tudo que você queria e eu neguei e de tudo que eu quis e você não soube como dar.

Desencontros. Perdidos em nós, cegos. A busca sigilosa por atalhos ou por caminhos na lama do fim. As estações mudam, as pessoas mudam. Você acha que eu estou suspensa num espaço inatingível aonde tudo permanece intacto. Digo que não. Agora tenho menos medo, sou mais eu. Endureci. Cresci. Percebo a ironia da vida e a crueldade do mundo. Mas o meu sorriso mole, inocente, torto e fácil me entrega: ainda tateio na cama enorme à procura dos seus braços que são – ainda, sei bem disso – meus também.

Na guerra fastidiosa entre a lonjura e o querer bem, vence o sentimento que rompe as barreiras (intransponíveis, dizem eles!) do silêncio. Entre o lugar que já conheço e me sei confortável e o desconhecido do mundo, me arrisco nas possibilidades fantásticas e impensáveis. O seu relógio é lento e resiliente: me espera nas entrelinhas dos dias e das coisas que existem com a inefável preguiça do ser.

Eles, ignorantes, me perguntam se não tenho medo de perdê-lo para sempre. Respondo que não se pode perder o que não se pode ter: gente é pássaro, pássaro voa pra tocar o azul, o azul é a alma e da alma não se demanda posse. Alma é etérea, tergiverso. Nesse Materialismo Dialético enigmático e impossível do nada ter e tudo me consumir, lembro de Caê cantando que ‘gente é pra brilhar’. E eu cantarolo depois dele a plenos pulmões, desafinada como me é de direito e de dever.

O que me chega em ruídos é o lamento de ver que quem era mágico escolhendo ser comum. Os meus olhos, encantados pelo extraordinário das coisas que sempre foram, eram desenhos de feitiços pelas linhas inexatas do seu corpo e pelo timbre da sua voz sempre grave ou agravada pela falta de esmero de algo e alguém qualquer com coisa alguma. Eu era borboleta pairando pertinho do seu nariz e soprando inadvertidamente algum tipo de leveza no bater das asas quase fatigadas. Hoje você é, me dizem por outros meios, a rotina lenta e absurda das conversas soberbas e conformadas, superficiais e ordinárias, vazias de conteúdo e cheias de vaidade, escassas de gente de verdade e repletas do fosco de quem o cerca.

Fico me perguntando o que fizeram os dias – aliado a ausência de nós – da sua figura. Sinto pena e alguma saudade da imagem que um dia guardei, mas fecho os olhos e aceito o fluir das mudanças como elas são. A existência vã e breve foi somada ao externo empobrecido das coisas (confirmando o que Sartre já sabia!) e precedeu a essência furta-cor que eu percebi, num dia qualquer e já longínquo, em você.

Encontro consolo em não querer querer: quero somente, pondero, ir além de tudo que promete ser amarra e exaustão.

Eu continuo febril, veja você, mesmo quando o cinismo quer me vencer pelo cansaço desse eterno querer.

'Está certo dizer que estrelas estão no olhar de alguém que o amor te elegeu pra amar. (…) Gente viva, brilhando estrelas na noite. Gente quer comer, gente quer ser feliz, gente quer respirar ar pelo nariz. Não, meu Nêgo, não traia nunca essa força, não: essa força que mora em seu coração. (…) No coração da mata gente quer prosseguir: quer durar, quer crescer, quer luzir. (…) Gente espelho de estrelas, reflexo do esplendor: se as estrelas são tantas, só mesmo o amor. (…) Gente espelho da vida, doce mistério.' (VELOSO, C.)
‘Está certo dizer que estrelas estão no olhar de alguém que o amor te elegeu pra amar. (…) Gente viva, brilhando estrelas na noite. Gente quer comer, gente quer ser feliz, gente quer respirar ar pelo nariz. Não, meu Nêgo, não traia nunca essa força, não: essa força que mora em seu coração. (…) No coração da mata gente quer prosseguir: quer durar, quer crescer, quer luzir. (…) Gente espelho de estrelas, reflexo do esplendor: se as estrelas são tantas, só mesmo o amor. (…) Gente espelho da vida, doce mistério.’ (VELOSO, C.)


Rascunhos de Outono VIII: Vinte e cinco de fevereiro.

9 de março de 2016 por Camila

‘Must be strangely exciting to watch the stoic squirm. Must be somewhat heartening to watch shepherd meet shepherd.’

(MORISSETTE, A.)

Pois é, a estóica se contorce e oferece uma visão interessante a quem se faz platéia. Zenão de Cítio me julga com miradas de estátua grega e diz que não foi assim que me ensinou. Os Rolling Stones insistem em domar cavalos selvagens que me arrastam pra longe. Mulheres mais fortes me estendem as mãos e me afogam em abraços. George Harrison está convicto de que isso também vai passar. A minha torcida do ‘deixa pra lá’ é enorme e faz barulho quando eu quase ofereço a minha cabeça em bandeja de prata. Apresso o tempo para que chegue o dia do alívio e do encher os pulmões de oxigênio leve, que custa. Olho o calendário e descubro o porquê da tormenta inconsciente: 25 de Fevereiro de doismilequalquercoisa.

Na solidão contínua do 25 de Fevereiro que já dura 145 horas e que é puro temporal aonde vivo, vi por uma imagem cheia de reticências que o seu foi de azul e muito sol. E aí percebi – com o rosto molhado de nuvem e idéias – que depois de você, vai ser difícil que os vinteecincodefevereiros dos meus anos sejam dias comuns ou de amnésia seletiva na minha existência vã.

Os vinteecincodefevereiros se tornaram dias mágicos quando, há anos atrás, você entrou na minha vida, encheu a minha barriga de borboletas ao esvaziar simultaneamente o meu coração de angústia e decidiu por si que nós teríamos uma história ímpar pra contar a qualquer um que quisesse ouvir alguém falar de amor. Não foi fácil, digo, você não entrou em mim de uma maneira fácil: você chegou dilacerando as minhas certezas enquanto eu desligava o botão do seu cinismo ao estilhaçar a maldade arisca e incógnita nos seus olhinhos negros.

Enquanto a agonia me consumia feito fogo que lateja calado e eu ardia em chamas de memórias ao criar os piores diálogos que habitavam uma paisagem que não era eu, você se perdia em outros beijos (frios, mecânicos, vulgares e mentirosos, mas beijos) e construía novas lembranças. Chorei. Soluçando e com dor de estômago, pedi a Deus – bem baixinho, mas com fervor! – que você se extinguisse em mim como o silêncio nas multidões que – ainda, que ironia! – nos observam. Sei que você ainda sabe de mim e dos horizontes que me formam ao esmiuçar tudo o que sou. Sei o que sei de você, que eu sempre soube sabê-lo tão bem em tantas minúcias e defeitos.

Olho pros lados e vago em busca de distrações. Leio e não me concentro. Trabalho e jogo tudo para o alto. Dou a cara pro tapa e não abaixo a guarda. Tomo café e queimo a boca. Masco chicletes de hortelã e mordo a língua. Vou ao parque encher a boca de vinho e penso em ir ao cinema (que íamos tão pouco por ter muito sobre o que conversar e, obviamente, passar mais de 1h em silêncio não era natural para nós quando estávamos juntos): lembro que nos ocupávamos falando de paixões e Chuvas de Novembro, de projetos, de soluções, de novidades, do caos, da posição exata das sua mãos me puxando pelos quadris e despenteando os meus cabelos, da provocação dos elogios tão desbocados quanto deliciosos, da elocubração da vida que construíamos e da que gostaríamos de ter. Juntos sempre, e talvez oferecendo algum significado material e humano ao conceito surreal de ‘simbiose’. Toda a amplidão do tempo raro e incomum, pele em pele, até eu tropeçar nos seus pés que me seguiam pelos meus caminhos sempre tortos. E agora, nessas voltas apressadas que o mundo dá, morro de pena e melancolia quando você mesmo me diz que tudo o que você faz é ir a uma sala escura para assistir sucessos de bilheteria superficiais enquanto emudece em outras vidas fictícias e empobrece com o passar das horas ordinárias.

Contemporizo. Sinto sua falta. Sintonizo suas palavras e tenho medo de que você me procure e me peça pra voltar mais uma vez, porque não vou conseguir ser forte como na semana passada em que neguei sonoramente. Começo a me afogar em autocomiseração e pago o preço da dúvida. Repito que não posso voltar atrás nas decisões que eu tomei de ser grande. Componho cânticos e começo a entoar como se fossem Mantras sagrados de fortalezas e convencimentos. Preciso acreditar. Ignoro o meu nascimento plástico há trintaetrêsanosatrás. A tristeza quer fazer de mim morada intransponível e eu culpo o inferno astral, mas minhas mãos são mais rápidas na busca das armas e do esquecimento lento e periódico. Descubro, só por cinco minutinhos de perfeição, que ainda há mundo. E aí me vou.

Fujo. Milhas. Léguas. Kilômetros. Anos-Luz. Qualquer medida de tempo e espaço, desde que seja provisória e imediata. Vou pra cidade que sempre me foi cura para me perder nas esquinas que não há e, quando volto ao meu lugar claustrofóbico, me desespero mais uma vez ao encontrar a poeira vermelha daquele chão de verão nas barras das minhas calças jeans e nas solas dos meus sapatos que são o constatar preciso e inescrutável de que tudo se desmancha no concreto do asfalto, até mesmo nós (outrora tão cegos e eternos).

A poesia indefectível e abstrata da 109 Sul. Brasília não é tão concreta assim.
A poesia indefectível e abstrata da 109 Sul. Brasília não é tão concreta assim.


Contos de Verão XI: Compromisso inadiável.

20 de janeiro de 2016 por Camila

‘Sometimes I’m terrified of my heart; of its constant hunger for whatever it is it wants. The way it stops and starts.’ 

(POE, E.A.)

Hoje fui até o restaurante chinês daquela rua onde costumávamos andar de mãos dadas e pedi um frango xadrez. Catei minuciosamente todos os pedaços de pimentão e, enquanto todos me julgavam em silêncio, pensei que só você me entenderia: entre o muito que sempre concordamos, sabíamos que pimentão era um desastre em qualquer circunstância e que cebola sim era tempero, assim como pipoca só é possível com queijo ralado e que não há a nós outro jeito que não juntos.

A noite me desperta, releio suas mensagens e, hesitante, já não sei se respondo o beijo que você me mandou por alguém ou se encerro o assunto em uma mudez atordoante. A dúvida me consome, mas não há propósito de que eu deva fazê-lo: nada positivo poderia resultar de um encontro que não o caos dos sentimentos amordaçados e o desejo que é tormenta na raiz. Queria te contar dos meus dias, mas não posso. Queria especificar a falta que você me faz, mas sufoco essa melancolia intrusa bem dentro de mim e vomito como me é de direito. Calo. Fecho os olhos. Respiro fundo. Controlo com a força do mármore frio o que é indomável, cruel e desregrado. Nada faz passar. Tudo arde, tudo é angústia: e, ainda assim, sei que é de mim o gosto perpétuo que habita a sua boca.

Imagino se você ainda segue emudecido os meus passos, se encontra meus olhos perdidos em cada esquina, se ainda lê os meus textos (e se os edita mentalmente, com todas as minhas crases indevidas – ou ausência delas! – e meus pronomes átonos mal alocados), se ainda me sente doer mansinho, se sabe da minha dificuldade em impor distância e de como eu morro a cada instante com as suas escolhas. E, sobretudo, como fraquejo com as minhas se formos fazer aqui em licença poética a justiça da mea culpa.

Já, já sei da certeza do seu amor enorme e que me engole desossada: me gritou o vento, os seus amigos, as ondas da Garça Torta, o seu sorriso atravessado no reconhecimento do meu olhar enviesado, a bebedeira do primeiro dia de um novo ano, o nosso silêncio amplo e irrestrito de perfeitos estranhos, o pôr-do-sol da Guaxuma e a ambiguidade das suas atitudes. Penso que quero ser maior do que me vejo e só aspiro a você felicidades e a mim o desapego. Tudo é confusão e espero impacientemente que o alívio substitua a dor da partida em vê-lo de (ao) longe: pulo de cabeça em mais distrações, em outros corpos, em novas intoxicações e em qualquer coisa que não tenha o toque embalsamado do seu cheiro no calor da sua saliva entre os meus dentes. Vou brincando de repor adições e correr menos riscos.

Toda viciada é estúpida mesmo quando tenta ser inteligente, e meu vício em adrenalina me deixa ligada em você no que parece um ciclo eterno. Fujo, desesperadamente: procuro curas, recomeços, explicações, mais um pedaço de ilusão, sua mão no meu quadril, meu medo inconseqüente, Gita, meditação e o ‘adeus’ que eu nunca te dei quando me desmanchei (feito tudo que é sólido!) no ar. Peço sinais que não chegam, prazeres efêmeros que em segundos me saciam, a minha vaidade cega feito faca amolada e o meu me perder nos meus próprios caminhos. ‘Sou forte’, repito a mim mesma em frente ao espelho – ao mesmo tempo em que passo batom carmim e embebedo meus lábios com vodka da pior qualidade! – quase que como um Mantra enquanto gargalho da sua convicção ao me rotular como ‘auto-suficiente’. Ah, se você soubesse; ah, se você ousasse divagar por essa trilha nas minhas curvas inexatas…

Você é querer sem poder: se corro pra você, desisto de mim e da mulher que eu gostaria de ser. Me recomponho enquanto me dilacero, me reinvento enquanto me destruo e lembro que o equilíbrio só é possível longe das paixões que nos implodem as vísceras e nos deixam na carne crua. Sei o quanto você gosta de me ver agonizar e me odeio por dar-lhe esta satisfação que, senão por mim, jamais existiria. Mais uma vez sou responsável por manter-me longe do que um dia foi lar, mas te amo feito bicho solto a vagar errante pelo mundo que é agora tão pequeno e claustrofóbico: estava certo quem um dia disse que corações são sim criaturas selvagens, pondero e reafirmo. E, por isso, não me culpo da insensatez que agora me tortura. Isso também vai passar, eu sei e repito para acreditar, como tantas coisas passarinho.

Escuto Sylvia Plath berrando aos meus ouvidos quase moucos e ao meu cérebro inapto: ‘Again, I feel the gulf between my desire and ambition and my naked abilities’, e digo a ela que eu também. Não há o que fazer com o prelúdio que já é premissa do fim. Ignoro minhas questões, acendo um cigarro e caminho com os pés descalços em pleno inverno.

Só por hoje, concluo, sou saudades. Amanhã, me prometo, volto a ser inteira.

Nos meus afluentes e amores pela cidade.
Liberdade: nos meus afluentes e amores pela cidade.


Contos de Verão X: Ruas vazias.

7 de janeiro de 2016 por Camila

‘When I desire you a part of me is gone.’

(CARSON, A.)

– 

Abri a porta de casa toda atrapalhada, com dois mundos em cada uma das mãos, e, sem acender a luz da sala ou tirar a chave do lado de fora, larguei as compras na cozinha. Respirei e me considerei vitoriosa na batalha infindável contra o trânsito. Perdi o olhar por uns 10 segundos e lembrei que precisava fechar a porta e iluminar a vida.

Nessa prática cotidiana da pressa e do descuido, vi que alguns envelopes se amontoavam no chão da entrada. Meio que com preguiça da burocracia de cortar papéis e já prevendo que se tratava de contas, peguei e debrucei a vista sobre eles. Eu estava certa, contas, desimportâncias e cobranças indevidas. Quando já tinha me preparado para largar tudo sobre a mesa e ir tomar um banho para tirar a cidade de mim,  encontrei a sua letra incerta num envelope pardo e sem remetente. Meu coração congelou. Trêmula, abri. Você, melancólico, me dizia no verso da fotografia mais bonita que tínhamos:

‘O retrato de uma saudade. O gesto do sentir falta. E, ainda assim, poder dizer que sorri paz em dias azuis, submerso em carnavais de silêncios e eloqüências.’

Quando bem de mansinho eu chorei e enxuguei a face para continuar a me embebedar com as  suas palavras, vi que você parafraseou aquele artista que canta mais ou menos assim:

‘…Fechei os olhos, chamei saudade. Olhei pra dentro, tenho você lá longe, bem longe. Um rumor dos corações, quero você na minha utopia. (…) E o beijo que tu me destes vou levar lá longe, bem longe.’

Fecha aspas. Encerra o tempo. Encolhe o meu mundo. Encurta o meu ar. O golpe foi baixo e a saudade me devora de dentro pra fora e em todas as minhas dimensões: me perco num espaço de 30m2, escorrego pela parede, abraço a foto das nossas pernas entrelaçadas enquanto estou em queda livre em direção ao solo, lembro dos detalhes do seu rosto e quase morro nove meses depois de tê-lo visto pela última vez.

Desisto de qualquer plano envolvendo livro e sofá e aceito a dura realidade que a paz da minha casa, naquele momento, seria o meu fim. ‘A louca morreu de nostalgia’, diriam as más línguas. Não coloco as frutas na geladeira ou me preocupo com a validade do iogurte, e, sem pensar, pego a chave do carro e saio em disparada. Não, não telefono pra você. Emudeço o celular para não correr riscos, mas saio perturbada a sua procura pela cidade. Nos lugares em que íamos, aonde fomos tão felizes e gargalhamos no mesmo compasso: aonde você censurava o meu vestido, me roubava flores, me abraçava forte e levava o meu corpo bêbado embora. Éramos par, simbiose e querer. Você entendia os meus sorrisos e eu conhecia os seus sinais. Seus defeitos que eram o caos de nós não permeiam mais a lista de ‘contras’, mas dançam macios na minha compreensão de lembranças: tudo que o tempo assola parece menor e mais perto do perdoável (que não é de mim exercer).

Não posso precisar o porquê de ter dirigido por quase 3 horas nessa cidade de verão à sua procura, não sei o que esperava que acontecesse. E se eu encontrasse você? Nada – um nada imenso – aconteceria. Acho que eu queria, talvez, ver a sombra do seu sorriso ou os seus trejeitos contidos de longe em bares de esquina. Não pretendia bagunçar a sua vida, encher sua alma de ilusões, roubar os seus chicletes de hortelã ou sequer estacionar o carro para falar com você (o outro lado da calçada é sempre mais seguro): não suportaria a sua voz de brisa a me chamar pelo nome. O seu tom inconcebível a mastigar e a cuspir palavras irresponsáveis pedindo pra voltar faria sangrar os meus ouvidos, ainda que aumentasse as cores do meu próprio viver. Eu sei que um encontro de peles e uma troca suave e malemolente de olhares não seria saudável mas não é sempre que consigo – ao contrário do que você me acusa! – conter os meus impulsos. Às vezes sou eu mesma a personificação da carne tórrida e da falta desmedida.

Sem conseguir decidir se foi melhor assim ou não, resoluta voltei pro meu micro-apartamento e me entreguei à justa solidão. Inocente, mal sabia eu que o perigo maior que corri essa noite não era o de encontrar você distraído por aí, era o de deitar na minha cama e não ter o seu corpo quente me abraçando. Era sentir sua ausência latejando como nunca. ‘Lobinho’, eu lhe dizia pela sua temperatura sempre acalorada, e mandava você parar de ficar tão junto de mim porque eu estava morrendo de aflição. Você, claro, ignorava os meus avisos e ficava se aninhando ainda mais. Eu fingia irritação e sorria timidamente com a certeza de você tão meu.

Com os olhos enevoados de noite pálida, concluo que hoje já nem sei mais os motivos que determinaram nosso fim ao que soa como séculos atrás, mas sigo convicta de que era esse o caminho traçado pelo destino a ser percorrido por nós: obedeço ao imposto pela sina mítica-universal e, com uma foice de gume afiado e passos cambaleantes, sigo cortando você da minha vida sem esperar o seu respeito a essa decisão.

Às vezes eu acho que essa saudade há de virar uma constante e que não tem solução equacional exata ou própria: seu silêncio, tal qual as suas palavras, mudam meu eixo e irrompem na minha razão e nas minhas decisões sem volta.

A coisa mais difícil que eu já tive que fazer em vida foi ficar longe de você.

'There's a bluebird in my heart that wants to get out but I'm too tough for him, I say, stay in there, I'm not going to let anybody see you. There's a bluebird in my heart that wants to get out but I pour whiskey on him and inhale cigarette smoke. (...) There's a bluebird in my heart that wants to get out but I'm too tough for him, I say, stay down, do you want to mess me up? You want to screw up the works? (...) There's a bluebird in my heart that wants to get out but I'm too clever, I only let him out at night sometimes when everybody's asleep. I say, I know that you're there, so don't be sad. Then I put him back, but he's singing a little in there, I haven't quite let him die and we sleep together like that with our secret pact and it's nice enough to make a man weep, but I don't weep, do you?'. (BUKOWSKI, C.)
‘There’s a bluebird in my heart that wants to get out but I’m too tough for him, I say, stay in there, I’m not going to let anybody see you. There’s a bluebird in my heart that wants to get out but I pour whiskey on him and inhale cigarette smoke. (…) There’s a bluebird in my heart that wants to get out but I’m too tough for him, I say, stay down, do you want to mess me up? You want to screw up the works? (…) There’s a bluebird in my heart that wants to get out but I’m too clever, I only let him out at night sometimes when everybody’s asleep. I say, I know that you’re there, so don’t be sad. Then I put him back, but he’s singing a little in there, I haven’t quite let him die and we sleep together like that with our secret pact and it’s nice enough to make a man weep, but I don’t weep, do you?’. (BUKOWSKI, C.)